segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A história do Ismero por Chirola


A propósito deste presidente ilegítimo e cooptado pela Corja, de evidências versus negação das evidências e da cegueira de quem os protege, deixo-vos aqui uma história que tem muito a ver com tudo o que se está a passar.

Andava eu no liceu no antigo 3º ano e havia um colega de turma que era o número 11(foi assim até ao 5º ano) que se chamava Ismero.

É certo que o nome não ajuda, mas era na realidade uma figura detestável.
Gordinho, de óculinhos fundo de garrafa, sempre muito aprumadinho, de cabelito cortado à tijela e sempre muito senhor do seu nariz.

O Ismero era bom aluno, tinha boas notas, fazia sempre os trabalhos de casa e o seu caderno era um exemplo. O seu comportamento era irrepreensível, isto, claro está, na visão dos professores dos directores de ciclo, da reitoria e até dos contínuos.
Por alturas do Natal e da Páscoa nunca faltavam as caixinhas com bolinhos e chocolatinhos para distribuir por todo aquele exército de educadores e responsáveis.

Já na visão dos colegas, era execrável. Era o tipo de gajo que nos recreios, ou ficava nos corredores à espera do toque para ser sempre o primeiro a entrar na sala de aula, ou quando vinha para o recreio, vinha sempre atrelado a um livro para se pôr a ler à sombra duma árvore.
Na Educação Física era um zero, eu diria mesmo, uma autêntica negação, e evitava participar em todos os desportos com bola. Quando começava o bom tempo e o professor organizava idas à praia, arranjava sempre maneira de estar adoentado.
Nos pontos nunca deixava copiar e quando havia situações extremas em que os colegas previamente lhe imploravam para ele ajudar, no rascunho escrevia as respostas erradas.

É claro que já todos perceberam e como não poderia deixar de ser, que o Ismero era o bombo da festa. Levava merecidamente bolachadas todos os dias e só não levava mais porque andava permanentemente a denunciar e a fazer queixinhas dos colegas aos contínuos, a puxar a aba do casaco aos professores e a chorar na saia das professoras.

Raramente entrava em casa da mesma maneira como saiu.
Ou lhe faltavam as canetas Rotring e os compassos Kern que lavava para a disciplina de Desenho, ou regressava com os discos de vinil de 33 rotações do Elton John que levava para Educação Musical todos partidos, ou quando ia à pasta à procura do belo lanchinho, este já tinha marchado. Isto para não falar dos óculos constantemente escalavrados e da roupa que servia para o pessoal limpar as botas cheias de lama quando se vinha das futeboladas à chuva.

Como dentro dos muros do Liceu, já se tornava complicado arriar com fé naquela espécie de gente, lá fora também não era fácil.
É que o Ismero estudou as normas e as regras do estabelecimento e descobriu que num perímetro de não sei quantos metros, também não se podia fazer-lhe ver que ele estava a seguir o caminho errado e que a sua maneira de ser e de estar era a todos os títulos condenável. Isto, claro, ao ritmo dumas cartuchadas valentes para não se esquecer da matéria que estava a ser dada.

Mas a verdade, é que o Ismero não arrepiava caminho. Por mais que lhe explicassem ou que lhe tentassem fazer ver que estava errado, que com o seu comportamento aberrante prejudicava toda a gente e que assim não ia longe, ele fazia ouvidos moucos e não queria saber.
É claro, no meio disto tudo, era raro o colega que não andava à nora com problemas de participações e suspensões.

O Ismero, como é bom de ver, também tinha alcunha. Tinha que ter.
E talvez, também por causa do seu nome, a alcunha encontrada foi Calimero. Pela sua vitimização permanente, pelo seu choradinho constante. Mas tinha ainda outra. Por ser um queixinhas, por ser um chora na saia, por ser um babaca, por ser um xoninhas. Mariconero.
Assentavam-lhe ambas como uma luva.
Mas não se pense que isso o incomodava muito. A única coisa que o incomodava realmente, era, como cobardolas e sacaninha assumido, levar umas murraças e ter de conviver com a indignação e revolta dos colegas.

A maneira obstinada e doentia como defendia o indefensável e a forma suja como negava as evidências, prejudicando o meio em que se integrava, perseguiu-o a vida toda.

Os anos passaram, e o Ismero que até era avesso a namoricos e ao relacionamento com as raparigas, dado o seu carácter mesquinho, picuinhas e mui certinho, casou.

Soubémos mais tarde, que tinha casado com uma rapariga que também tinha estudado connosco, que era a filha do chefe dos contínuos e que como não podia deixar de ser, era o maior camafeu que havia no Liceu.
De tal modo era assim, e embora a vontade de estudar não fosse muita, lembro-me que quando acidentalmente nos cruzávamos com ela nos corredores, a indignação e a repulsa era de tal ordem, que alguns chegavam mesmo a atirar os livros para o chão e a gritar que assim era impossível ir às aulas.
E lá íamos todos jogar à bola para o campo nº 3.

Mesmo assim, aconteceu aquilo que era inevitável. O Ismero foi corno.

É verdade. É certo que tinha tudo para o ser, mas que diabo... com a Carla Piedade? Aquela que para abreviar, todos chamávamos a Calamidade?

Bom, a coisa era de tal ordem, que no bairro era conhecida pela Molaflex, ou seja, o colchão da rapaziada.
Como sempre, só o Ismero não acreditava. Negava tudo.

Dizia que era tudo mentira. Que ela era impoluta. Imaculada. Que era uma Santa. Que eram todos uns detractores. Que ninguém tinha provas.

Até que um dia, após mais uma semana de trabalho como caixeiro viajante, o Ismero regressou a casa.
Encontrou apenas as paredes esburacadas e em cima da bancada da cozinha, contas para pagar. Muitas.
A conta bancária a zeros e dívidas. Só dívidas.
Não tinha nada. Sentiu-se mal. Em estado de choque dirigiu-se à casa de banho.

Em cima do tampo da retrete tinha um bilhete.
ADEUS PANHONHA!
Assinado, Calamidade.


Hoje quem quiser ver o Ismero, pode visitá-lo no asilo de loucos do Pisão.

Todos os dias se passeia com uma beca pelos ombros e grita para quem o quer ouvir:

EU SOU JUÍZ DO SUPREMO TRIBUNAL! EU SOU JUÍZ DO SUPREMO TRIBUNAL!

P.S. Qualquer semelhança com alguma coincidência é pura realidade.

1 comentário:

Gonçalo Correia disse...

João Nuno,

Falando de honestidade, o que é que te parece alguém que aproveita o facto de um outro (com quem até já havia discutido sadiamente) não estar presente para o desafiar a fazer algo e para o insultar de seguida?

Por exemplo, um certo jovem que há uns tempos numa comunidade digital do Sporting, aproveitou o facto de eu momentaneamente não estar a participar para dizer que eu punha a cabeça na areia e não comentava os temas 'incómodos' (inclusivamente, quando o tenho feito, sempre, noutros locais)?

Como é que classificarias esse sujeito? É que ismero, convenhamos, é suave de mais...