terça-feira, 15 de maio de 2012

CNPD e serviços secretos, quem guarda os guardas?





Tivemos acesso, e pela sua relevância e dados e refêrencias que contem, publicamos a carta de Eduardo Campos á Presidente da Assembleia da República:

"Senhora Presidente da Assembleia da República,
Doutora Maria da Assunção Esteves,

Excelência:

No passado dia 13 de Abril, com registo e aviso de recepção, enviei a Vossa Excelência por via postal a carta que abaixo reproduzo e que envio em anexo, dando conta, entre outros elementos, do Relatório do Tribunal de Contas nº 13/2011 que concluiu pela ilegalidade do auferimento dos vencimentos do Presidente e de dois vogais da Comissão Nacional de Protecção de Dados. A carta foi recebida no dia 16 de Abril último.
Nessa mesma carta, descrevi a Vossa Excelência a actuação dos “serviços secretos” portugueses, que se marcou e se pauta, no que me disse e diz respeito, por uma actuação persecutória, delinquente e criminosa. Se essa actuação alastrou ao gabinete de Vossa Excelência, pode acontecer que não tenha recebido e conhecido a carta que enderecei, pois perante tão sensível matéria nenhuma resposta me foi dada, nem de mera e singela acusação do recebimento da minha carta.
Em Portugal, nem o Estado parece ser estadista, nem os estadistas parecem ter sentido de Estado.
Por isso, pela presente via electrónica, venho dar conhecimento a Vossa Excelência da carta que enderecei no dia 13 de Abril último e daquele relatório do Tribunal de Contas, reproduzindo a primeira e anexando ambos em ficheiro de formato PDF.

Com os mais respeitosos cumprimentos, apresentados com o mais solene
sentido de responsável cidadania,

Lisboa, 9 de Maio de 2012,

Eduardo Campos




Coimbra, 13 de Abril de 2012

Senhora Presidente da Assembleia da
República
Doutora Maria da Assunção Esteves


Excelência:

Eduardo Campos, Mestre em Novas Fronteiras do Direito – Direito da Sociedade da Informação – pelo ISCTE-IUL, ex-vogal da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) melhor identificado na Petição nº 94/XI/2ª e na cópia do Bilhete de Identidade que segue no final, vem pela presente via expor a Vossa Excelência a actuação dos Serviços Secretos portugueses em relação ao próprio expoente e à CNPD, concluindo pela acção que se impõe sobre esta Comissão.

Mais leva o exponente ao conhecimento de Vossa Excelência o Relatório nº 13/2011 da 2ª Secção do Tribunal de Contas (TC) proferido no Processo de Auditoria às Remunerações dos Membros da CNPD nº 7/2010, o qual junta sob o Anexo I. Neste relatório, o TC, definitiva e inafastavelmente, concluiu pela ilegalidade do auferimento dos vencimentos por parte do Presidente da CNPD e de dois dos seus membros eleitos pela Assembleia da República (AR) e pela obrigatoriedade da sua devolução aos cofres do Estado em montantes que ascendem a cerca de 200 mil Euros, hoje substancialmente mais. O Presidente da CNPD havia solicitado ao Auditor Jurídico da AR um parecer sobre a sua situação remuneratória, mas alegou ser reformado da PGR, quando na verdade é jubilado. Os regimes são totalmente diferentes e a falsidade da invocação aproveitou ilegalmente ao Presidente da CNPD.

Anteriormente àquele relatório, o mesmo Presidente respondeu por escrito ao exponente que não havia participado dele para efeitos criminais e, ulteriormente, declarou em autos judiciais que havia feito essa participação, apesar de a não ter feito. Não obstante este relatório do TC ser conclusivo, a situação apenas se manterá inconsequente para os visados e prejudicial para a legalidade, para a dignidade do Estado e para os cofres públicos se o Procurador-Geral Adjunto (PGA) no TC violar a lei, cometendo ele próprio os crimes de denegação de justiça, abuso de poderes e favorecimento pessoal ao não promover a efectivação da decisão do TC e da responsabilidade do Presidente e dos vogais, hipótese que, devido à conduta anterior deste PGA face à CNPD, deve ser colocada com grande probabilidade.

Também leva o exponente ao conhecimento de Vossa Excelência, sob o Anexo II, o requerimento de aceleração processual que apresentou no Processo 1770/10.3 TDLSB da 6ª Secção do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa. Neste processo está em causa o facto de a Directora de Serviços da CNPD ter fornecido à comunicação social uma acta da CNPD com matéria que, segundo a própria e o Presidente da CNPD, se encontrava em segredo de justiça. Mesmo que este regime não tivesse sido decretado sobre a dita acta, ela sempre continha matéria sensível e reservada que não podia ser divulgada pelos funcionários da CNPD, nem pelos seus dirigentes, sem prévia deliberação da comissão – a qual não existiu.

Além do mais, a dita acta continha factos falsos e forjados na medida em que são directamente contraditórios e inconciliáveis com os factos que a CNPD fez consignar no comunicado oficial que divulgou na mesma altura. A condenação da Directora de Serviços da CNPD só deixará de acontecer se o DIAP, o(a) magistrado(a) titular do processo e a Directora do DIAP, ilegalmente e com cometimento de crimes de denegação de justiça, abuso de poderes e favorecimento pessoal, não tramitarem o processo e se demitirem de exercer a competente acção penal, hipótese que, devido às condutas anteriores dos magistrados e da Directora do DIAP, se deve ter como altamente provável.

Dir-se-á que são dois assuntos que estão entregues à justiça e que só à justiça compete tratar. Mas assim não é. Por isso, faz o exponente um retrato da CNPD fidedigno e sustentado em demonstrações credíveis e inabaláveis: documentos e lei.

De qualquer modo e ultrapassando razões que se têm como inúteis, no documento nº 1 que instrui a Petição nº 94/XI/2ª que tramitou na 1ª Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais – Direitos, Liberdades e Garantias – estão descritos com detalhe e demonstrados sobejamente por 58 documentos os factos praticados na CNPD e integradores dos crimes de tráfico de influências, favorecimento pessoal por funcionário, abuso de poder, concussão, denegação de justiça e prevaricação, descaminho de objectos colocados sob o poder público, denúncia caluniosa, desvio e utilização de dados pessoais de forma incompatível com a finalidade determinante da recolha, violação do segredo de justiça e violação do direito moral de autor. Em suma, um ano e meio – o de 2007-2009 – de manipulação da tramitação processual e da utilização dos poderes fácticos organizacionais para fins ínvios e dolosos. Para maior comodidade de Vossa Excelência, sob o Anexo III envia o exponente a participação que descreve os factos e os 58 documentos que os provam encontram-se no processo 639/09 TDLSB da 4ª Secção do DIAP de Lisboa, podendo ser apresentados caso haja necessidade.

Este último assunto já não se encontra sob a alçada da justiça. Num flagrante e deliberado conflito de interesses na medida em que o crime de violação do segredo de justiça denunciado na CNPD ocorreu no inquérito do Processo Casa Pia e a participação destes factos da CNPD foi atribuída ao procurador do inquérito do Processo Casa Pia, e mantida mesmo depois de expressamente ter sido invocado tal conflito de interesses, aquele procurador e o respectivo juiz de instrução, contra legem, decidiram rejeitar a constituição de assistente do aqui exponente apesar de haver factos que integravam crimes semi-públicos, causaram prejuízos e geraram responsabilidade civil, e, ocultadamente, sem notificação do participante, arquivaram o processo. Enquanto esse processo não for reaberto, encontra-se, por conseguinte, arquivado, e a matéria nele existente está fora do âmbito da acção judicial.


A situação actual da CNPD

Dando por adquirido o conhecimento dos factos acima descritos e aqueles provados nesta participação do Anexo III, a eles importa acrescentar outros que se encontram demonstrados nas actas da CNPD, noutros documentos e nos Processos de Verificação Externa de Contas e de Auditoria às Remunerações dos Membros que o TC fez à CNPD. São eles, sumariamente:

a) A CNPD, desde pelo menos o ano de 2000, conheceu um ambiente de conflito desenfreado entre as funcionárias dirigentes e o ex-Presidente e ex-vogais, que levou à saída destes debaixo de grande perseguição (interposição de queixas-crime contra ex-membros e ex-dirigentes da CNPD – as actas nº 2 e 7 de 2001 da CNPD respeitantes parecem estar desaparecidas, mas outras há que o revelam).

b) Neste ambiente, as reuniões da CNPD tinham de ser gravadas por desconfiança em relação às actas mas até as cassetes das gravações das reuniões secretariadas pela relações públicas da CNPD desapareceram;

c) as funcionárias dirigentes da CNPD assumiram funções de representação internacional para as quais não tinham competência, foram nomeadas para cargos para os quais não preenchiam os requisitos legais, aumentaram os seus vencimentos de forma exponencial (os avençados passaram a receber 580.000$00 mensais), pagaram despesas aos vogais que as favoreciam e deixaram de pagar aos vogais que as não privilegiavam, intrometeram-se nos computadores dos vogais e enviaram pareceres a diplomas legislativos que ainda não estavam aprovados para a comunicação social, invocando erros, os concursos para admissão de pessoal foram anulados e fizeram-se novos concursos cujo júri deixou de ser liderado pelos membros da CNPD e passou a sê-lo pelos funcionários dirigentes, a aquisição de material informático, o pagamento de despesas de saúde e o custeio dos almoços dos funcionários da CNPD passaram a ser desregrados, os orçamentos passaram a ser insuficientes e a CNPD passou a necessitar de reforço de orçamentos intercalares e de sucessivos e crescentes reforços orçamentais e, mesmo assim, não havia dinheiro para a deslocação dos membros e elementos da CNPD aos colóquios internacionais, mas quem passou a ficar de fora foram os vogais, iam as funcionárias.

d) As chamadas de telefones e as mensagens de correio electrónico dos vogais foram monitorizadas pelos serviços da CNPD, invocando erro experimental dos sistemas informáticos quando interpelados para explicações pelo PGA da CNPD;

e) Documentos do processo Casa Pia foram encontrados em pastas informáticas da relações públicas da CNPD, introduzidos quando esse processo estava em segredo de justiça;

f) O Presidente da CNPD e a directora de serviços ignoraram e denegaram as suas competências disciplinares e legais e emitiram um comunicado oficial que revelava que tais documentos do Processo Casa Pia tinham sido retirados de blogues por razões funcionais, assim explicando a sua existência na pasta da relações públicas, ao mesmo tempo que consignavam em acta (aquela acta que a secretária-geral forneceu à comunicação social) que esses documentos eram pessoais desta relações públicas, só para veladamente insinuarem que houve devassa e acesso indevido a dados pessoais da mesma relações públicas pelo aqui exponente;

g) O TC detectou um infindável rol de infracções financeiras: não utilização do Documento Único de Cobrança pela CNPD; não utilização do Plano Oficial de Contabilidade para o sector Público; não realização de relatórios de gestão; discrepância entre as aquisições e as existências de imobilizado; pagamento de viagens a vogais sem cabimento orçamental; pagamento de avultadas quantias de horas extraordinárias sem registo idóneo de assiduidade e dos mapas de pessoal; abertura de conta bancária paralela em violação do princípio da unidade de tesouraria com um saldo de 1,1 milhões de Euros; cobrança de 392 mil Euros em 4 meses com ocultação de receita à AR, de quem depende para efeitos orçamentais e procedendo como se essa quantia não tivesse sido cobrada; a CNPD não tem e recusou-se a fazer um Plano de Gestão da Prevenção do Risco de Corrupção apesar de não ter segregação de funções de contabilidade que permita um controlo interno funcional através da distinção de quem recebe documentos de despesas, de quem paga e de quem confere;

h) Apesar da violação deliberada da lei, o TC não sancionou essas infracções, antes acolheu as fraudulentas explicações da CNPD e conformou-se com a não correcção destas ilegalidades e irregularidades; i) A CNPD não fazia relatórios de gestão, como a lei obriga, e quando instada a fazê-lo e a explicar-se dessa omissão afirmou que não tinha obrigação de o fazer porque a Lei de Protecção de Dados (LPD – Lei 67/98, de 26 de Outubro) era ulterior à lei que obrigava a Administração Pública a fazer relatórios de gestão e a LPD obriga a CNPD a fazer relatórios, que esta comissão faz, no dizer da CNPD. Entendia esta comissão que, assim, estava desobrigada de fazer relatórios de gestão. Acontecia que os relatórios de que a LPD fala são relatórios de actividades, anuais, para fazer a accountability da actividade da CNPD e adivulgação das matérias de dados pessoais, não são relatórios de gestão financeira e económica, além de que, na data desta invocação pela CNPD, esta comissão nem os relatórios de actividades fazia havia cerca de 6 anos.

j) A lei do Orçamento de Estado para o ano de 2011 colocou a CNPD na dependência orçamental do Ministério das Finanças, em virtude da necessidade de contracção financeira, mas a CNPD reagiu contra essa opção e rebelou-se contra a lei, aumentando em 50% as suas taxas, que são receita própria não dependente da autorização do Ministério das Finanças.



Tudo o que acaba de se expor é um sumário seleccionado, não exaustivo, do que mais importante se pode dizer e demonstrar da CNPD. Para esgotar a listagem de comportamentos ilegais e dolosos pela CNPD seria necessário tornar esta missiva demasiado longa. Porém, tudo o que acaba de se expor e ainda mais tem sustento em documentos e fundamento na lei, não são rumores difamatórios.

Se do ponto de vista organizacional interno a CNPD é o que acabava de se descrever, estando tudo demonstrado nas actas da CNPD e no Relatório nº 02/2010 do Processo de Verificação Externa de Contas nº 2182/2008 do TC e no Relatório nº 13/2011 relativo ao Processo de Auditoria às Remunerações dos membros da CNPD nº 7/2011, do ponto de vista político-substantivo a CNPD mostra-se uma entidade incapaz de exercer as suas competências. Na verdade, a rotação dos seus membros, que em 10 anos mais de 10 membros não terminaram os seus mandatos, sendo que dois vogais renunciaram aos seus mandatos no mesmo dia e duas técnicas saíram no mesmo dia da CNPD e renunciaram a um aumento de 12,5% dos seus vencimentos, tudo pelo clima de conflituosidade e ilegalidade imposto pelo Presidente e pela directora de serviços, não permite que a CNPD adquira um “capital” de conhecimento técnico das matérias de que tem de tratar.

Noutro exemplo, uma funcionária técnica da CNPD concluiu com êxito a licenciatura em Direito, concluiu com êxito uma pós-graduação em Ciências Jurídicas e lavrava a dissertação sobre protecção de dados no ambiente laboral que lhe dava o grau de Mestre quando foi vítima de coacção funcional, ostracizada na CNPD, colocada numa sala vazia com um computador sem sistema, todos os dias até às 18 horas, hora em que lhe davam ordens para ir pôr o correio aos CTT. Isto, enquanto outra colega sua, com a licenciatura em Direito por terminar, era promovida funcionalmente no exercício de serviços jurídicos. O último vogal eleito pela AR em Dezembro de 2008, que se encontra ilegalmente a auferir o vencimento desta comissão, pelo que o exponente julga saber, é um militar reformado que sempre foi afecto à extrema-esquerda e que se filiou no PSD no Verão anterior à sua eleição pela mão dum vogal da CNPD que se encontra em funções desde 1994 mas que assume em acta nada saber das matérias, sendo aquele vogal padrinho de casamento da directora de serviços da CNPD, pai de um ex-funcionário contratado ao abrigo daquele domínio de facto exercido pelas funcionárias dirigentes e que esteve envolvido na intromissão abusiva dos funcionários no computador dum ex-vogal e no envio dum parecer para a comunicação social antes de ser discutido e aprovado pela comissão.

Quem passa anos preocupado e ocupado com as mais grosseiras violações da lei e com os mais grotescos atropelos à regularidade, à linearidade e à transparência, ultrapassando os membros da CNPD e usurpando os lugares e funções que lhes cabiam por lei, quem se impõe através da coacção e da chantagem acaba por não adquirir a competência para o mais importante das suas atribuições: a defesa dos direitos de privacidade e de protecção dos dados pessoais dos cidadãos, de todos sem excepção porque se trata duma entidade de garantia, a promoção de uma cultura de responsabilidade, competência técnica e boas práticas no tratamento de dados pessoais e o exercício duma autoridade preventiva, construtiva e reparadora, de natureza ética, reguladora e sancionatória. Tudo o que se espera de uma entidade administrativa independente e tudo o que a CNPD não faz.

O desconhecimento das matérias de protecção de dados e a falta de isenção, de imparcialidade e de independência da CNPD.
Assim, do ponto de vista político-substantivo e muito sinteticamente apontando situações exemplificativas, sem prejuízo de ulterior desenvolvimento por outra forma:

a) No caso da videovigilância em espaços públicos, a CNPD defendeu, desde Dezembro de 2008, que detinha a competência para ponderar os índices de criminalidade, bem como para avaliar e decidir da necessidade de instalação de sistemas de videovigilância nos locais abrangidos, à luz dos critérios da política executiva de prevenção e combate à criminalidade. Esta defesa da CNPD resulta de uma deficiente leitura da Lei 1/2005, de 10 de Janeiro, pouco aceitável do ponto de vista da convivialidade democrática entre instituições e nada aceitável do ponto de vista jurídico, técnico, provocando uma disputa de competências com o Executivo com repercussões intensas junto dos corpos de segurança, dos serviços de manutenção da ordem pública e das forças de segurança nacional. Mesmo depois de o Governo ter feito uma alteração legislativa à Lei 1/2005, de 10 de Janeiro, através da Lei 9/2012, de 23 de Fevereiro, meramente esclarecedora da repartição de competências, a CNPD insurgiu-se publicamente contra essa alteração, não obstante esta lei ter sido aprovada, publicada e de ter entrado em vigor. Essa insurreição aconteceu no espaço público informativo, com alarmismo, demagogia e denotando total ausência de sentido institucional, evidenciando mesmo uma leitura fraudulenta da lei e do ordenamento, além de mostrar a inadmissível preparação técnico-jurídica (e de sobre toda a latitude do Direito Público). A CNPD invocou Recomendações do Conselho da Europa, o Tratado de Lisboa e a Directiva 95/46/CE, evidenciando uma crassa ignorância das matérias com que directa e imediatamente lida. Atalhando os argumentos técnicos, o exponente participou no debate técnico-jurídico, expôs e divulgou a sua opinião, fundamentadamente, defendendo ponto de vista que foi recepcionado e acolhido pelo Parlamento e, seguramente, pugnando pela correcta aplicação do Direito, incluindo do direito de protecção aos dados pessoais na videovigilância em espaços públicos.

b) No caso da intenção legislativa sobre a regulamentação das bases de dados dos órgãos policiais, a CNPD emitiu um parecer que foi amplamente discutido na comunicação social. Foi, como se verá, uma prática reiterada, a da discussão na praça pública informativa das matérias submetidas a parecer da CNPD, com esta comissão a invocar os mais alarmistas, demagógicos e desconhecedores argumentos técnico-jurídicos e a provocar perturbação política e clivagem institucional.
A título de mero exemplo, a CNPD defendeu “a proibição de tratamento de dados pessoais sensíveis e do seu registo” pelas forças policiais e de investigação, “excepto em casos de absoluta necessidade para fins de determinada investigação criminal”, criticou a “mistura” de dados pessoais, defendeu que os dados pessoais incompletos deviam ser eliminados e que só a lei da AR podia legislar em matéria nitidamente regulamentar. O exponente analisou a matéria, pronunciou-se sobre ela, divulgou a sua posição junto da AR e explicou a completamente errada aplicação da lei de protecção de dados no sector policial por parte da CNPD. Fê-lo tão exaustiva e profundamente quanto os elementos de que dispunha o permitiram, pois não conheceu as propostas de diplomas.

c) No que toca ao debate sobre a intenção legislativa de criar as bases de dados do sistema de saúde, surgido em Outubro, a CNPD, quer através do Parecer nº 54/2011, quer através das declarações da Secretária-geral que foi quem representou a CNPD no espaço público informativo onde esse debate, mais uma vez, ocorreu, bem como aparentemente através do deputado João Semedo, posicionaram-se nesse debate com argumentos alarmistas e demagógicos, com identificação política, utilizando as matérias de garantia de direitos, liberdades e garantias, neste caso, de protecção de dados pessoais e da respectiva entidade administrativa independente para fins de competição partidária. Defenderam, erradamente, nulidades de cláusulas de contratos civis, opuseram-se (mais uma vez opõem-se à lei em vigor) ao sentido da alteração legislativa já produzida e entrada em vigor no que toca à repartição de competências entre a CNPD e a Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) sobre o direito universal de acesso à informação e documentação administrativa de natureza clínica, limitou-se a CNPD a defender uma posição proibicionista de tratamento de dados pessoais de saúde, mostrando falta de vontade de colaboração na construção de soluções promotoras de um boa prática de protecção de dados no sector do Estado e da Saúde, mostrando desconhecer totalmente, inclusivamente, matéria da sua estrita e exclusiva competência: as interconexões de dados pessoais. Foi o exponente que enviou à AR o seu estudo e avaliação da matéria, que emitiu a opinião fundamentada no Direito e na melhor ciência disponível, opinião que foi traduzida em parecer, recepcionada pela AR e acolhida na recente lei sobre o tratamento de dados pessoais no sector da saúde (Lei 5/2012, de 23 de Janeiro).

d) Várias situações que se agrupam por economia de tempo e espaço revelam nitidamente a total impreparação da CNPD para as matérias de protecção de dados pessoais e para a falta de isenção face aos interesses em jogo, falta de imparcialidade face aos intervenientes e falta de independência política. Mais uma vez e em todas as situações, a CNPD travou o debate no espaço público, sem sentido de Estado, de modo perturbador da estabilidade institucional e com argumentos demagógicos e desconhecedores das matérias:

i. A oposição e proibição da CNPD a que o Ministério da Defesa Nacional procedesse ao tratamento de dados pessoais dos seus efectivos, para gestão dos seus contingentes e no âmbito do tratamento de dados pessoais para fins de recursos humanos, com alarido alarmista e demagógico na comunicação social;
ii. A impreparação da CNPD no que toca aos dados pessoais dos trabalhadores quando tratados na situação de utilização de mecanismos de RFID nas viaturas das empresas, pronta para reunir com os sindicatos reclamantes quando a controvérsia recomenda, ao invés, a reunião da CNPD com o ICT para abordarem em conjunto o exercício do direito ao trabalho e do direito à (liberdade de) empresa em condições de conformidade com o Código de Trabalho e com a Lei de Protecção de Dados;
iii. A proibição que a CNPD impôs à Ordem dos Notários de proceder a uma pesquisa centralizada a partir da solicitação aos Notários inscritos na Ordem dumas determinadas escrituras públicas, defendendo que essa pesquisa constitui uma violação da privacidade e dos dados pessoais dos outorgantes das escrituras públicas. No caso em concreto, estavam em causa umas escrituras públicas de aquisição de imóveis por parte dum ex-Primeiro-Ministro (PM) a propósito do mais aventado processo de imputação de corrupção na actualidade. O filho do Presidente da CNPD era membro desse governo e declarou na comunicação social que tal pesquisa violava a privacidade e a protecção de dados desse ex-PM e, de seguida, a CNPD proíbe a Ordem dos Notários de proceder a essa pesquisa. A deliberação que consignou essa proibição foi entregue ao Presidente da Direcção da Ordem dos Notários, que a acatou e a fez cumprir, mas que nunca mostrou, por recusa, aos restantes membros da Direcção da Ordem dos Notários. Perante solicitação expressa do aqui exponente, a Ordem dos Notários recusou o acesso a essa deliberação. A CNPD retirou do seu site da Internet todas as deliberações. A deliberação da CNPD é violadora de todo o direito constitucional, administrativo, notarial, de protecção de dados pessoais e da própria Lei de Protecção de Dados que institui a CNPD após a reforma constitucional de 1997, prejudicando a transparência e a responsabilidade da gestão pública.
iv. No Verão de 2009, o Governo de então, através do Ministério da Justiça de que era Secretário de Estado o filho do Presidente da CNPD, anunciou e difundiu a informação de que o Cartão de Cidadão servia para a identificação eleitoral, gerando a confusão que foi conhecida.
A CNPD tinha dado, poucos anos antes, parecer sobre a lei do Cartão do Cidadão e esta lei acabou por eliminar a função inicialmente prevista para o recenseamento e identificação eleitoral. Ou seja, o Governo estava a utilizar os dados pessoais do Cartão do Cidadão registados no Instituto dos Registos e Notariado do Ministério da Justiça para uma finalidade não prevista na lei e sem autorização nem notificação da CNPD, finalidade que competia a entidade diferente – a Direcção-Geral da Administração Interna (DGAI) do Ministério respectivo. Esta situação, merecendo actuação da CNPD, carecia de ser corrigida, conferindo-se legitimidade para esse tratamento para fins de identificação eleitoral, apresentando soluções consentâneas com a lei e com a Directiva 95/46/CE e acompanhando o processo, numa colaboração para o sucesso da solução encontrada. Tudo em nome da boa fé institucional e do bom funcionamento dos mecanismos democráticos.

Contudo, a CNPD apenas agiu sancionatoriamente, através de uma inspecção às Bases de Dados do Recenseamento Eleitoral da DGAI que terminou numa deliberação de censura política ao MAI, violadora da isenção, imparcialidade e independência que se impõe à CNPD e violadora o princípio da legalidade, na medida em que, perante a infracção que censurou, não aplicou sanção nem fundamentou a sua não aplicação. Mas o mais grave é que quem devia ter sido visado pela actuação da CNPD não devia ter sido a DGAI, devia ter sido o Ministério da Justiça e o Instituto dos Registos e Notariado por terem utilizado os dados pessoais dos cidadãos para uma finalidade não prevista na lei, não autorizada nem notificada à CNPD. Mas no Ministério da Justiça estava o filho do Presidente da CNPD e no MAI estavam os adversários e inimigos do Presidente e das funcionárias dirigentes da CNPD. Nas eleições presidenciais seguintes, a CNPD que havia recebido um mandato da 1ª Comissão Parlamentar – Direitos, Liberdades e Garantias – para acompanhar e avaliar preventivamente a situação, revelou ainda maior alheamento nesta matéria, com as consequências de todos conhecidas.

e) Também quanto ao Acordo de Cooperação Policial para Intercâmbio de Informações e Acesso a Dados para fins de investigação criminal, prevenção da criminalidade organizacional transnacional e combate ao terrorismo, celebrado entre as soberanas e democráticas repúblicas de Portugal e dos Estados Unidos da América (EUA), a CNPD manifestou de forma insurreccional a sua oposição a este acordo. Este acordo foi celebrado por vários países da União Europeia, entre os quais, por mero exemplo, se contam a Espanha e a Alemanha, (UE) para superar as delongas das negociações entre a UE e os EUA e permitir o acesso facilitado a meios que dispensam vistos para entrada nos EUA. O Acordo foi celebrado entre os representantes legítimos dos dois países, em Portugal por assinatura conjunta do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) e do Ministério da Administração Interna (MAI). A CNPD, que apenas tinha competência para dar parecer a instrumentos normativos (não obstante poder ser espontaneamente consultada pelos decisores políticos) quando o acordo fosse convertido em diploma legal pela AR, não se limitou a elaborar e enviar o seu parecer, antes acusou o Governo e o Estado português (uma vez que se estava num cenário de acordo internacional) de falta de transparência e de violação da Constituição e dos direitos humanos. Mais uma vez, este tema e esta posição da CNPD desconhecedora da lei e dos instrumentos internacionais e europeus de protecção de dados foram exaustivamente discutidos na comunicação social. A CNPD insurgiu-se pública e violentamente contra o Acordo depois de ter sido celebrado entre os dois governos soberanos e imputou e rotulou os EUA com os mais ignóbeis dos qualificativos. A CNPD lavrou uma deliberação de censura ao Governo e ao Estado portugueses, difundiu no seu site tal censura mas não permitiu o acesso a essa deliberação. Também nesta matéria foi o exponente que consultou o dito Acordo, que estudou a matéria à luz do direito interno, europeu e internacional aplicáveis, se pronunciou e enviou a sua opinião, fundamentada e convertida em forma de parecer, a qual foi recepcionada e acolhida pelo Parlamento aquando da aprovação da lei que consigna esse Acordo.

f) Em Março de 2010, o exponente enviou por correio electrónico aos líderes parlamentares e ao Presidente da AR (PAR) de então o Relatório aqui constante como Anexo III, uma vez que já havia decorrido mais de um ano sobre a sua participação ao Ministério Público (MP) e a avaliação política deveria ser feita em separado mas ao mesmo tempo que a avaliação judiciária. Em Abril de 2010, o exponente entregou ao PAR todos os elementos para que a AR pudesse tomar cabal conhecimento da situação na CNPD e actuar em conformidade com os seus poderes, competências e deveres político-jurídicos a que se encontra vinculada pela Constituição (CRP) e pela Lei. Em Maio de 2010, o magistrado do MP da Comarca do Baixo-Vouga enviou para a AR, para a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ao Negócio da PT-TVI, as escutas telefónicas feitas ao PM de então, recolhidas casualmente no âmbito do processo judicial Face Oculta. Essas escutas não podiam ter saído do âmbito judicial e do foro criminal, da investigação criminal concreta em que foram recolhidas, para uma CPI parlamentar para avaliação da conduta política do PM. No entanto, a CNPD, que tem na sua lei expressamente a competência para actuar no sistema judicial, que já o fez anteriormente, que considera que os dados pessoais só devem poder ser tratados pelas polícias no âmbito de uma investigação criminal concreta e quando haja absoluta necessidade, omitiu o seu pronunciamento e demitiu-se de intervir, como lhe competia e estava obrigada. Foi o exponente que, desde Angola onde se encontrava nessa altura, lavrou sem elementos de estudo disponíveis a sua opinião sobre o assunto, deu-lhe a forma de parecer nos termos possíveis pelas suas condições e enviou para a CPI PT-TVI defendendo a legalidade democrática e a obediência constitucional: a proibição da utilização de escutas ao PM colhidas casualmente no âmbito de uma investigação
criminal concreta para fins de avaliação política do PM numa CPI. É quem nem o PM responde perante a AR a não ser no âmbito da responsabilidade política do Governo, que não estava em causa na CPI PT-TVI: quem responde perante a AR é o Governo, o PM responde perante o Presidente da República, nos termos dos artigos 191º da CRP.

Independentemente da legalidade e da constitucionalidade da recolha e gravação daquelas conversas telefónicas do ex-PM, a utilização numa CPI de responsabilização política das escutas colhidas numa investigação criminal é um desvio de utilização para finalidade incompatível com aquela que determinou a recolha e, por isso, acrescido à gravidade e intensidade da violação da privacidade e dos dados pessoais em comunicações electrónicas (conversações telefónicas) e à sensibilidade do cargo ocupado pelo titular dos dados, a CNPD deveria ter intervindo no sentido da protecção da privacidade e dos dados pessoais do ex-PM. Não o fez. Foi o exponente que o fez, desde Luanda e com risco pessoal e físico, como se informará adiante, e, felizmente para a legalidade, para a constitucionalidade, para a estabilidade e dignidade do Estado, desde logo da AR a que Vossa Excelência hoje preside, a AR e a CPI receberam a opinião do exponente em forma de parecer, a audição das escutas pelos membros da CPI PT-TVI não teve lugar, nem a sua utilização foi consequente, e esta CPI foi avisadamente apagada da imagem da AR.

g) No campo sancionatório e investigatório em que a CNPD detém poderes de inquérito, a actuação da CNPD é extremamente censurável e perigosa, quer para a democracia, quer para os cidadãos. Exemplos disso são as deliberações da CNPD no caso da actuação dos SIRP. Recordando, ficou demonstrado que os SIRP detinham uma lista de dados de tráfego de chamadas e mensagens telefónicas móveis dum jornalista que noticiou factos relativos a esses serviços. Essa lista tinha os números do referido jornalista dos seus aparelhos da rede TMN e da rede Optimus. A Optimus colaborou com a investigação criminal e apurou as responsabilidades internas da fuga da informação que ocorreu na sua empresa ao fornecerem ilegalmente dados pessoais de tráfego das chamadas e de mensagens telefónicas móveis aos agentes dos SIRP, através de canais pessoais e particularistas e para satisfazer interesses ilegais. A Optimus, depois de ter apurado as suas responsabilidades internas, entregou o caso ao MP. Já a TMN, que se tivesse sabido, não procedeu a qualquer averiguação interna e não apurou responsabilidades. Pode dizer-se, então, que a Optimus comprometeu os SIRP com a revelação da fuga de informação e a remissão do assunto para o MP, ao passo que a TMN parece ter encoberto o assunto e optado por ignorar as responsabilidades que podiam ser assacadas. A CNPD, neste caso, não careceu de queixa do titular dos dados, o jornalista devassado, para agir, ao contrário das situações anteriores. Contudo, à TMN a CNPD fez uma diligência investigatória que concluiu pela inexistência de infracção por parte desta operadora, mas as diligências e os passos de investigação efectuados não são aptos nem adequados para as conclusões absolutórias da TMN que a CNPD retirou (Deliberação da CNPD nº 951/2011, entretanto retirada do site desta comissão, como todas as suas deliberações). Pelo contrário, à Optimus, a CNPD deduziu nota de culpa por infracções legais quando não podia fazê-lo, porque a LPD proíbe a CNPD de actuar quando o assunto está entregue ao MP, além de que a nota de culpa foi amplamente difundida na comunicação social, uma vez que cominava a Optimus com coimas no valor de milhões de Euros, provocando a esta empresa, seguramente, prejuízos avultados de imagem comercial. Essa nota de culpa era nula, partia de pressupostos falsos, juridicamente errados e ilegais, denotando desconhecimento e fraude à lei. Também nestes dois casos, foi o exponente que pôde analisar os assuntos, estudar as questões em causa e pronunciar-se no sentido do esclarecimento e da reposição da legalidade violada pela CNPD.



A actuação dos Serviços Secretos (SS) portugueses


O que acaba de se descrever, expor e demonstrar sobre a CNPD é algo que se prolongou por mais de dois anos.
Em 6 de Fevereiro de 2009, o exponente apresentou a participação aqui junta sob o Anexo III na Procuradoria-Geral da República (PGR). Não o fez sem antes ter reunido com o Vice-Procurador-Geral da República no cargo naquela altura, lhe ter exposto a situação, lhe ter comunicado que ia fazer a participação e ter procedido conforme lhe foi comunicado e aceito.

Em Junho de 2009, o exponente, perante o silêncio do jornal Público e da RTP face a missivas que visavam uma resolução consensual da difamação produzida por estes órgãos de comunicação social, intentou duas acções cíveis, uma contra cada um destes órgãos, pois os elementos que o exponente tinha e que lhe haviam sido fornecidos por escrito pelo próprio Presidente da CNPD evidenciavam um flagrante dolo difamatório nas notícias que esses órgãos deram nos dias 22 e 23 de Janeiro de 2009. Simultaneamente, o exponente apresentou queixa-crime contra desconhecidos pelo fornecimento de informação difamatória com origem na CNPD.

Não tem interesse, na avaliação do exponente, a descrição do historial destes processos judiciais. Importante, contudo, é saber-se que o DIAP de Lisboa não tramitou as investigações como lhe competia, antes perseguiu nesses mesmos processos o denunciante, aqui exponente.
Igualmente importante é saber-se que o Presidente da CNPD havia dado uma informação por escrito em Fevereiro de 2009 e em Novembro de 2009 proferiu declarações falsas nos autos judiciais, em sentido totalmente contrário àquelas de Fevereiro. Tal como é importante saber-se que a jornalista do Público esteve mais de cinco meses para ser notificada para prestar declarações, só tendo prestado declarações depois de ter passado pelo Tribunal do Baixo-Vouga poucos dias antes de este tribunal ter enviado as escutas do ex-PM para a CPI PT-TVI.

O que aconteceu foi que, precisamente a partir do Outono de 2009,não apenas a democracia foi suspensa em Portugal, como a cidadania e a liberdade do exponente foram eliminadas até à presente data. O exponente defendeu a sua dissertação de Mestrado sobre tratamento de dados pessoais e acesso a documentação administrativa no caso da informação de saúde em Dezembro de 2009, com sucesso, e a partir dessa altura, mesmo estando o exponente com permanência em Angola, foi visado pelos mais atrozes actos de perseguição, vigilância, monitorização, ameaça, coacção e todos os actos persecutórios e
violentadores, os quais, hoje, já podem ser verbalizados.

Em Março de 2010 o exponente enviou desde Angola a participação que está aqui como Anexo III para o PAR e para os líderes parlamentares para avaliação política, pois mais de um ano já tinha decorrido sobre a sua participação judicial. Desde essa data até 17 de Junho de 2010, o exponente esteve sob vigilância em Luanda: perseguição pessoal, escutas telefónicas, monitorização de imagem e som dentro de casa a partir de um apartamento imediatamente acima do que o exponente habitava, interrogatórios policiais informais, perseguições rodoviárias e pedonais, abordagem por serviços de informações estrangeiros e chegou a perseguição ao ponto de agentes dos serviços de informações angolanos entrarem por casa do exponente dentro. Em 7 de Junho de 2010, o exponente enviou por email para a AR a sua opinião em forma de parecer sobre a proibição de utilização das escutas telefónicas feitas ao ex-PM pela Comarca do MP do Baixo-Vouga. Fê-lo debaixo de intensa perseguição, coacção e ameaça. O exponente experimentou e simulou movimentos para detectar os seus perseguidores.

Em 17 de Junho, face à permanente vigilância por todos os meios, o exponente deixou Luanda, abandonando os seus bens pessoais nesta cidade e regressando a Portugal quase só com a roupa que trazia vestida. Esta actuação a que o exponente foi sujeito foi feita a partir de solicitação dos SS, por aquilo que foi comunicado ao próprio exponente com fonte numa alta patente militar angolana.

No Verão de 2010, o exponente fez e apresentou no TC a Reclamação contra o Relatório do TC na VEC 2182/08 e o requerimento para a Acção de Responsabilização da CNPD pelas infracções financeiras cometidas.
Em Setembro de 2010, o exponente apresentou na AR a Petição nº94/XI/2ª que correu na 1ª Comissão Parlamentar – Direitos, Liberdades e Garantias. Fê-lo, em ambos os casos, debaixo de intensa perseguição pessoal, pedonal e rodoviária, debaixo de vigilância física e pessoal junto a sua casa e nos seus percursos. Em todo este tempo, a vida pessoal, familiar, privada e íntima do exponente foi vasculhada e devassada, usando-se factos e passagens verdadeiros da sua vida pessoal, familiar, privada e íntima para serem deturpados, manipulados, falseados e, assim, serem glosados na comunicação social com grosseria e postos a circular informalmente e com denegrição nos meandros comunicacionais e políticos. Factos e episódios ímpares, singulares e pessoalíssimos da vida pessoal, familiar, privada e íntima do exponente, absolutamente inócuos mas únicos, uns verdadeiros que depois eram deturpados e outros tantos falsos que eram referenciados por elementos identificadores do exponente, foram obtidos a partir de pessoas que tiveram relações afectivas do tipo conjugal com o exponente mas que entretanto tinham terminado e glosados na comunicação social com grosseria e boçalidade de modo a serem inequivocamente identificados pelo exponente e postos a circular informalmente, com denegrição nos meandros comunicacionais e políticos. Nada disto seria da responsabilidade do Estado se os SS não estivessem envolvidos nesta actuação. Mas estiveram e directamente.

Em Dezembro de 2010, o exponente e a sua filha menor foram perseguidos nos seus percursos na cidade de Lisboa, tendo sido ostensivamente fotografados como gesto de ameaça e coacção. O mesmo aconteceu no Verão de 2011, mas desta vez com uma mobilização de dezenas de pessoas para os locais de frequência habitual na vizinhança de casa do exponente, com escutas telefónicas ambientais e perseguição até ao restaurante onde o exponente jantou com a sua filha, de novo com ostentação de recolha de fotografias.

Durante os períodos de 2009 e 2010 em que o exponente esteve em Portugal e durante todo o ano de 2011, ano em que as questões substantivas de protecção de dados pessoais foram ampla e inadmissivelmente debatidas na comunicação social com participação activa da CNPD, o exponente esteve sujeito a vigilância pessoal exercida em sua casa e no seu escritório e, nos dias anteriores e subsequentes à saída das notícias respeitantes àquelas matérias, com presença vigilante, ameaçadora e coactiva durante todo o dia desses períodos. O exponente foi importunado diariamente e todos os fins-de-semana nos locais da vizinhança da sua residência que frequenta habitualmente, foi visado por arremesso de objectos (jornal Público) para cima da mesa onde tomava as suas refeições, recebeu chamadas no telemóvel e no escritório anónimas e intimidadoras, foi perseguido pela cidade de Lisboa, teve o seu telemóvel sob escuta feita pelos mais grotescos dispositivos mas também pelos mais sofisticados meios, vindo depois as suas conversas telefónicas – algumas tidas e mantidas com consciência da devassa para confirmar as escutas – a serem glosadas grosseira e boçalmente na comunicação social, difundidas com denegrição e dadas a saber ao exponente que foram escutadas. Também nas perseguições e monitorização da mobilidade do exponente, houve ostentação intimidadora e ameaçadora nessas perseguições com máquinas fotográficas, além doutras situações em que o exponente foi obrigado a colocar-se em situações de risco para detectar e denunciar – como detectou e denunciou – as perseguições de que foi alvo. Ademais, o exponente esteve e provavelmente ainda se encontra com escutas direccionadas para o interior de sua casa, uma vez que actuações de perseguição com conhecimento dos movimentos e conversas do exponente no interior de sua casa foram detectados. A devassa passou inclusivamente por obter informações a partir das relações familiares do exponente, totalmente inócuas mas únicas, com glosa grosseira e boçal e divulgação deturpada mas com elementos inequivocamente identificadores do exponente para este se sentir enxovalhado, intimidado e ameaçado.

No Verão de 2011, sobretudo na última semana de Julho e na primeira semana de Agosto em que as notícias sobre o ex-Director do SIED e as suas ligações à maçonaria e a actividades criminosas e delinquentes saíram na comunicação social, o exponente, que tinha sido visado pela actuação que se descreveu e tem o conhecimento da CNPD que acima se demonstrou, foi visado pela mais intensa e atroz perseguição que se pode imaginar, com mobilização de inúmeras pessoas para os locais de vizinhança e frequência habitual do exponente, com afectação de inúmeros meios humanos a perseguirem-no pontualmente em cada um dos seus movimentos, com técnicas e modos de actuação tipicamente dos SS, com actuação concertada com outros agentes de serviços de informações estrangeiros, provavelmente de Angola, perseguindo intensamente o exponente em todos os seus movimentos durante dias a fio. O exponente foi perseguido no interior do prédio do seu escritório, levou encontrões no passeio à porta do seu escritório, foi perseguido nos percursos que fez de moto com manobras perigosas feitas de modo ostensivo e ameaçador, actuação que se manteve constante até ao fim do ano de 2011, com variações de intensidade maior quando o exponente escreveu sobre as matérias de dados pessoais que saiam na comunicação social. As mensagens de telemóvel foram e têm sido acedidas com devassa e o seu conteúdo transmitido para glosa e referência na comunicação social, de modo extravagante e ostensivo com o intuito claro de o exponente se aperceber disso mesmo e ficar intimidado.Provavelmente, as mensagens de correio electrónico também têm sido acedidas com devassa, mas certamente são conhecidas no seu conteúdo do mesmo modo em que informações da vida pessoal são obtidas a partir das pessoas que se relacionam com o exponente.

Já no final do ano de 2011 e no ano de 2012, tudo o que acabou de ser descrito manteve-se, com obtenção de informações verdadeiras que são falseadas e outras totalmente falsas e inventadas, relativas à vida pessoal e íntima do exponente a partir das suas relações pessoais e íntimas actuais, com vigilância nas imediações de sua casa, com escutas ambientais quando o exponente se encontrava em espaços públicos, com escutas direccionadas para o interior de casa do exponente, seguindo-se a glosa na comunicação social de modo grosseiro e boçal, com referências inequívocas ao exponente de modo a intimidar e ameaçar. Em Outubro e Novembro de 2011 e em Março de 2012, em que o exponente se pronunciou sobre as matérias de protecção de dados pessoais de saúde e sobre a videovigilância em espaços públicos, sobretudo no fim-de-semana de 17 a 19 de Março último, a perseguição e toda a actuação acima descrita intensificou-se e o exponente foi perigosamente visado por manobras rodoviárias e provocação de acidente quando dirigia a sua moto.

Senhora Presidente da Assembleia da República,
Excelência:
É assim que o exponente tem vivido desde o Outono de 2009 até à presente data. É sinteticamente que o exponente apresenta todos os factos, pois não caberia a descrição pontual e detalhada de todos os actos de perseguição e devassa a que o exponente foi sujeito. O exponente pronunciou-se sobre as matérias de protecção de dados pessoais que a AR recebeu, considerou e aproveitou para os regimes legais que aprovou e para as matérias que acima estão indicadas nas condições acabadas de descrever.

O que acaba de se descrever são factos absolutamente indemonstráveis.
A actuação dos SS é caracterizada por isso mesmo: por ser imperceptível e indemonstrável. Por isso o exponente nunca apresentou queixa formal ou informalmente, nem às autoridades, nem a ninguém.

Porém, hoje estes factos já não carecem de demonstração e, por isso, o exponente dirige-se a Vossa Excelência descrevendo a actuação dos SS em relação ao exponente e à CNPD.
Não carecem de demonstração porque eles devem ser tidos como provados.

No início da tarde do dia 20 de Março último, depois de o exponente ter sido visado em manobras rodoviárias de provocação de acidente no fim-de-semana anterior (para além da perseguição, da vigilância, da monitorização das mensagens de telemóvel e de tudo a que incessantemente o exponente foi sujeito), encontrou-se ele com o Secretário-Geral dos Serviços de Informação da República Portuguesa (SIRP), Júlio Carneiro Pereira, na Livraria Almedina do Saldanha, na cidade de Lisboa.

Este encontro durou cerca de 30 minutos a três quartos de hora, na ideia do exponente. Este solicitou ao Secretário-Geral dos SIRP uma conversa sob absoluto sigilo como se nunca tivesse acontecido para que este responsável pelos SIRP desse as explicações ao exponente que este tem o direito de obter, bem como para lhe ser oferecido o compromisso de cessação destas actuações e de garantia de protecção contra estas ofensas. O Secretário-Geral dos SIRP recusou manter nesse encontro tal conversa e compromisso. Por isso, a revelação deste encontro não defrauda qualquer compromisso de confiança e sigilo que naquele encontro tenha sido estabelecido. Esse compromisso foi recusado pelo Secretário-Geral dos SIRP. O exponente vê-se obrigado a fazer uma ponderação serena e séria entre não revelar a conversa que teve com o Secretário-Geral dos SIRP, nem a Vossa Excelência que preside à AR, órgão de soberania que tem a competência de fiscalizar os SIRP, ficando cúmplice com a ofensa e criminalidade de que o próprio exponente é visado e perpetuando as ofensas de que é objecto; ou, por outro lado, revelar essa conversa que não defrauda qualquer compromisso que tenha sido estabelecido, porque não foi, com o intuito de comunicar a Vossa Excelência o que se passa, não apenas com os SIRP, mas também com a CNPD e, finalmente, com aquilo a que o exponente tem sido sujeito. O exponente optou por este segundo comportamento.

E, de facto, os factos e actuações acima descritas e ocorridas durante o triénio 2009-2012, até à actualidade, a partir da conversa que o exponente teve e manteve com o Secretário-Geral dos SIRP na Livraria Almedina do Saldanha, devem ser tidos como demonstrados, desde logo porque são verdadeiros e reais, mas também pelo que se segue.

O exponente conhece o Secretário-Geral dos SIRP, Júlio Carneiro Pereira, e não é só pela figura pública que o Secretário-Geral dos SIRP, Júlio Carneiro Pereira, é. O Secretário-Geral dos SIRP, Júlio Carneiro Pereira, pelo que o exponente julga saber, é oriundo de Montalegre, o concelho mais remoto do distrito de Vila Real, mas estudou no liceu em Vila Real. O Secretário-Geral dos SIRP, Júlio Carneiro Pereira, além de ter estudado em Vila Real, é sobrinho daquele sacerdote que foi secretário do Bispo de Vila Real, uma espécie de director de serviços de informações da diocese, com quem acompanhou e foi “apadrinhado” nessa sua juventude.
Por sua vez, o exponente é de Vila Real. O avô do exponente foi médico escolar e professor do liceu e médico do seminário de Vila Real, tal como o pai do exponente foi médico do seminário e médico pessoal do Bispo de Vila Real até ao fim dos seus dias, ambos pro bono, além de terem sido beneméritos reconhecidos da Diocese de Vila Real. O exponente, além de ter sido vogal da CNPD e membro da CADA, foi, antes disso, advogado em Vila Real, Presidente do Conselho de Disciplina da Associação de Futebol de Vila Real, Presidente do Conselho de Justiça da Associação de Futebol de Vila Real, foi dirigente concelhio e distrital partidário e candidato às legislativas de 2002 como cabeça-de-lista de um partido que veio a integrar a coligação governativa de 2002-2005.

Naturalmente que o exponente e o secretário-Geral dos SIRP se conhecem mutuamente e sabem as referências recíprocas.
Na Diocese de Vila Real, com extensões à Santa Casa da Misericórdia e à Caritas locais, apenas por meros exemplos, os movimentos financeiros e patrimoniais que são do conhecimento comum são altamente inquietantes. Os núcleos mais conservadores da Diocese de Vila Real, com ligações a organizações secretas ligadas à Igreja Católica, estão, desde há pelo menos três décadas, ligadas a sectores empresariais e do Estado que, de acordo com o conhecimento público local, estão envolvidos com o recebimento de dezenas de milhões de Euros de proveniência duvidosa, suspeitosamente criminosa mas provavelmente ilegítima, e que hoje os cidadãos e contribuintes portugueses estão a pagar de forma extremamente custosa: corrupção na realização de infra-estruturas urbanas, desvio de traçados de estradas para favorecimento dos proprietários dos terrenos afectados, expropriações inflacionadas, burla a particulares na aquisição e arrendamento de terrenos afectados por expropriações, facturação de obras ao Estado que nunca foram realizadas, duplicação de facturação de obras públicas, falências dolosas de empresas de construção civil e obras públicas, operações urbanísticas violadoras dos planos de ordenamento do território, construção de habitação social e de equipamentos sociais com favorecimento privado clientelar, alienação de património imobiliário com favorecimento pessoal, entre muitas outras situações.

Foram dezenas, pelo menos dezenas senão centenas de milhões de Euros que dos cofres do Estado saíram indevidamente. Foram estes núcleos que, juntamente com a autarquia local, impuseram e impõem ao exponente a mais gritante discriminação, arbitrariedade e barbárie relativamente a um imóvel que o exponente é proprietário em Vila Real, somente vista em casos de confisco como se o exponente de um Távora se tratasse em tempos de Pombal (tudo autuado em volta do Processo 209/99 da Câmara –e Assembleia Municipal – de Vila Real). Foram estes núcleos que impediram e boicotaram uma tia do exponente, Mesária da Santa Casa da Misericórdia de Vila Real, de tomar assento neste órgão. Foram estes núcleos que, em 2003, no dia 29 de Agosto, fizeram sair uma notícia no jornal Público em que imputaram com falsidade e difamação a esta tia do exponente, então Directora do Centro Distrital de Segurança Social de Vila Real, os crimes mais hediondos relacionados com pedofilia, venda de crianças para adopção, exploração de mão-de-obra infantil, corrupção, participação económica em negócio, entre outras enormidades, naquilo que foi um dano remoto, imprevisto e descontrolado do Processo Casa Pia. Ao exponente, na mesma notícia, imputaram com falsidade e difamação o crime de corrupção. A tia do exponente reformou-se e pôs fim abrupto à sua carreira de assessora principal do Ministério da Solidariedade e da Segurança Social; o exponente viu a sua carreira de advocacia e de actividade política locais, que estavam a ser bem sucedidas, ter fim e esteve cerca de três meses para tomar posse na CNPD. A falsidade e a difamação foram cabalmente demonstradas em tribunal.

Aos núcleos mais conservadores da Diocese de Vila Real, com ligações à associação secreta ligada à Igreja Católica, donde provém o Secretário-Geral dos SIRP, o exponente nunca fez mal algum: apenas sabe quem são, donde vieram, o que fizeram e no que se tornaram. Mas até este momento nunca fez ou disse o que quer que tenha sido. Só os conhece e sabe quem são, quem eram, o que fizeram e no que se tornaram.

É este conhecimento que permite ao exponente dizer que a conversa que manteve com o Secretário-Geral dos SIRP na Livraria Almedina do Saldanha e a reacção deste autoriza-o a comunicar a Vossa Excelência os factos que se descreveram porque se devem considerar demonstrados.
Estes factos acabados de descrever foram relatados, todos estes e muitos mais e com maior detalhe, ao Secretário-Geral dos SIRP, Júlio Carneiro Pereira, na conversa mantida na Livraria Almedina, no Saldanha. A reacção deste não foi a de ficar surpreendido com o que ouvia, nem a de negar os factos, nem a de estranhar os relatos ou a de avisar o exponente, seu interlocutor, que revelava alienação e fantasia doentias. O Secretário-Geral dos SIRP acenou afirmativamente com a cabeça conforme ouvia o exponente, anuindo na confirmação dos factos que ouvia, apenas dizendo que alguns desses factos poderiam ter sido praticados por outras organizações que não os SIRP, mas não negando que outros factos – e os mesmos – tivessem sido praticados pelos SIRP. Perante a alegação do exponente de que os factos poderiam não ter sido praticados formal ou institucionalmente pelos SIRP, mas foram-no seguramente por efectivos dos SIRP, por meios técnicos dos SIRP e por métodos e técnicas dos SIRP colocados ao dispor ou efectuados fora das horas de serviço dos SIRP como se de “part-time” ou biscate se tratasse, o Secretário-Geral dos SIRP não negou, antes acenou afirmativamente com a cabeça olhando de modo ameaçador, como se tal fosse o que o exponente pudesse contar para futuro. E, perante a interpelação directa e expressa do exponente relativamente à protecção que os SIRP têm de lhe dar, o Secretário-Geral dos SIRP apenas disse que tal se tratava de um caso de polícia, ao que o exponente retorquiu, dizendo que essa era uma resposta insidiosa e que os SIRP têm o dever e a competência legal expressa de proteger os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, sobretudo quando ofendidos por ameaças imperceptíveis, remotas e difusas em que os meios de participação e investigação criminais formais e tradicionais são ineficazes.

Com o conhecimento que o exponente tem do Secretário-Geral dos SIRP, com os factos que o exponente conhece sobre a CNPD, com a actuação que os SS tiveram para com o exponente, protegendo a CNPD apesar da ilegalidade funcional crónica desta comissão e apesar do seuinadmissível desconhecimento das matérias de que se deve ocupar, a resposta do Secretário-Geral dos SIRP ao exponente é inequívoca no que respeita à actuação dos SS.

Senhora Presidente da Assembleia da República,
Excelência:
O exponente tem conhecido a cartelização dos magistrados, sobretudo do Ministério Público, quer do TC, quer do DIAP, quer do DCIAP, quer da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, quer da PGR, para o encobrimento da criminalidade organizacional da CNPD. Esta afirmação, do ponto de vista do exponente, pode ser indesmentivelmente provada por documentos autuados em processos judiciais respectivos: Processo 639/09.9 TDLSB da 4ª Secção do DIAP; Processo 3288/10.8 TDLSB da 12ª Secção do DIAP; Processo 1770/10.3 TDLSB da 6ª Secção do DIAP; Processo 7316/11.6 da 4ª Secção do DIAP; Processo VEC 2182/2008 do TC; Processo Auditoria às Remunerações dos Membros da CNPD nº 7/2010. Por isso, essa afirmação pode ser feita. Essa cartelização chegou ao ponto de ser invertida a situação do exponente, passando de participante a visado por imputações de índole criminal quando nada fez que merecesse qualquer censura. A estratégia contra o exponente tem sido a da constante devassa, denegrição e difamação, perseguição e ameaça.

Quanto aos factos relacionados com os SS, eles não puderam ser participados, comunicados ou sequer verbalizados porque eram totalmente indemonstráveis. Foi com desumano custo e sofrimento que o exponente suportou tudo o que acabou de descrever, correndo riscos enormes, alguns deles para detectar e certificar-se das perseguições de que foi alvo.
Porém, o exponente teme uma actuação concertada que vise, de novo, o exponente e que seja desenvolvida pelos detentores da acção penal. Por isso, o exponente imputa os factos que acabou de descrever aos SS, uma entidade difusa e inexistente que agrega os SIRP e as organizações secretas e discretas, a qual, como se sabe, não existe nem tem personalidade jurídica.
Ao Secretário-Geral dos SIRP só é imputado o facto consistente na conversa descrita na Livraria Almedina, a qual aconteceu de facto na data mencionada e nos termos descritos. O exponente sabe o risco que corre caso tal episódio seja desmentido pelo Secretário-Geral dos SIRP, a quem não se imputa directa e pessoalmente, nem institucionalmente, os factos persecutórios e devassadores supra descritos.

Actuação sobre a CNPD

Entre o exponente e a actual CNPD existe mais do que uma diferença:existe a de privilégio e a de mérito.
Quanto à primeira: o Presidente da CNPD é pai do ex-secretário de Estado da Justiça e da Presidência do Conselho de Ministros do Governo Sócrates; um vogal, o mais antigo da instituição e que ao fim de 14 anos declara para a acta que não pode ser relator de processos porque não é jurista mas não deixa de ser relator dos processos de reprovação dos sistemas de videovigilância, é irmão do Presidente da Comissão Europeia; outro vogal, pelo que o exponente julga saber, é um entusiástico membro activo da Maçonaria; dois membros são magistrados de tribunais superiores; a secretária-geral da CNPD é casada com um jornalista da agenda da SIC, primo direito do ex-Procurador-Geral Distrital do Porto e ex-Director Nacional a Polícia Judiciária, este último amigo pessoal da Directora do DIAP e membro activo e reconhecido na corporação do MP e os três são amigos íntimos do Director-Geral da SIC e do ex-Director de Programas da RTP e actual director de Programas da TVI; a relações públicas da CNPD é ex-jornalista do Público e casada com um jornalista com longo percurso na comunicação social; a CNPD deu trabalho bem remunerado e mal justificado a vários jornalistas, como sejam a ex-mulher do sub-director de informação da TVI e irmã duma jornalista colaboradora do Correio da Manhã e prezada pelos colegas pelos préstimos de facção que prestou a este jornal e ao sector social e judiciário que lhe recebe as simpatias. Todos têm relações estreitas ou antigas com os partidos políticos PCP, BE e com os sindicatos, quer das magistraturas, quer das forças policiais, quer das Forças Armadas, quer da Função Pública.
O exponente é um cidadão português no pleno exercício dos seus direitos fundamentais, cívicos e políticos, apesar de violentamente tolhido nesse exercício pelos próprios poderes institucionais do Estado.

No entendimento do exponente, é aquela teia de relações privatísticas, clientelares e ilegítimas que garante a impunidade da delinquência funcional acima descrita e demonstrada em autos de processos judiciais, que explica o emudecimento da comunicação social em relação a esta aberrante situação de ilegalidade e que explica que o Parlamento, o Governo e demais entidades públicas convivam com tamanha incompetência nas matérias, tratando a CNPD e os seus membros com um reconhecimento técnico e científico inexplicáveis face aos muito baixos padrões de conhecimentos e de valores éticos que esta comissão e seus membros já demonstraram ter.

Quanto à segunda diferença, a de mérito, do lado da CNPD, a actuação pública e ética e o nível de conhecimentos estão acima apresentados por meios sólidos e inafastáveis.
Do lado do exponente, de forma extremamente sintética para evitar a tentadora prosápia pessoal, este entrou na CNPD em Novembro de 2003 e no Verão de 2004 estava a ser co-responsável pelos tratamentos de dados no Euro 2004, nos cruzamentos de dados entre o Ministério das Finanças, da Justiça e da Segurança Social e foi o relator da experiência desse ano do voto electrónico. Em Novembro de 2004, não tendo a CNPD receitas suficientes para realizar de forma condigna o encontro Ibérico com a congénere espanhola, foi o exponente que colocou os seus conhecimentos à disposição da CNPD e conseguiu que o encontro se realizasse no Pinhão, concelho de Alijó, em condições excepcionalmente favoráveis e agradáveis, sem qualquer custo para a CNPD. O exponente foi o relator e responsável pelas experiências de voto electrónico em 2005, tendo feito a apresentação principal da CNPD no seu colóquio da AR, foi o relator dos pareceres do Cartão do Cidadão, da Base de Dados Genéticos, da Procriação Medicamente Assistida, do Acesso do Tribunal Constitucional às Bases de Dados dos Partidos Políticos, foi o relator das deliberações gerais sobre Ensaios Clínicos, sobre Investigação Científica, sobre Marketing Político, sobre a Interpretação da Deliberação 51/2001 no que toca ao Acesso aos Dados Pessoais de Saúde de Pessoas Falecidas no caso dos Seguros do Ramo Vida, sobre o Voto Electrónico, entre tantas outras.

Foi o exponente que viajou sozinho para a Bolívia e Colômbia para o Encontro Ibero-Americano de Protecção de Dados, seguindo-se outra viagem em que foi representante da CNPD e trouxe este encontro para Portugal em plena Presidência Portuguesa da União Europeia e quando Portugal acolheu a Cimeira Ibero-Americana de Chefes de Estado. O exponente foi palestrante em conferências em Lisboa, em Londres, em Bruxelas e noutras cidades doutros países, deu aulas e coordenou seminários em pós-graduações e mestrados em Portugal, na Colômbia e apresentou temas em congressos em Madrid, em Paris, em Londres e noutras cidades. O exponente foi representante da CNPD no Grupo de Trabalho do artigo 29 da Direcção-Geral de Justiça, Liberdade e Segurança da União Europeia, foi membro da Autoridade Comum de Controlo da Convenção de Schengen, da Convenção Europol e foi membro do Grupo de Trabalho Polícia e Justiça no âmbito do Conselho de Ministros da União Europeia. O exponente concluiu o mestrado na área da protecção de dados pessoais.
Isto, para além do que acima se demonstrou sobre os mais actuais temas de protecção de dados em Portugal.

O exponente tem, por isso, especial posição para se pronunciar sobre a CNPD.

Senhora Presidente da Assembleia da República,
Excelência:

Na actualidade, Vossa Excelência ocupa de forma ímpar dentre os
titulares dos órgãos de soberania o segundo lugar na hierarquia do
Estado. A singularidade de Vossa Excelência na advém de ser uma
Senhora a ocupar tal cargo, advém antes da cultura e da profundidade
democráticas de que é portadora e que empresta a todos os actos
políticos que protagoniza, sempre com o mais alto sentido de Estado.
Esta consideração do exponente não é um lisonjeio gratuito, é antes
expressão da mais sólida convicção que nem sequer é recente, apesar de
recentemente ser partilhada por quem em regra desvaloriza a substância
na actuação pública em favor da percepção preconceituosa, imediatista,
superficial, parcial e subjectivista. É uma convicção sólida presente
e não recente, mas é também uma expectativa legítima e fundada e uma
esperança realista no progresso e na evolução da Democracia em
Portugal.

O Parlamento a que Vossa Excelência, para surpresa destes últimos,
mas apenas destes últimos, tão distintamente tem presidido, tem a
competência constitucional e legal de fiscalização dos SIRP e a
competência constitucional, não de tutela decisória na medida em que
se trata de uma entidade administrativa independente, mas de
superintendência política da CNPD, pois em democracia não há entidades
insindicáveis. E não há órgão de soberania mais alto do que o
Parlamento para a superintendência política da Administração Pública
independente.

Os portugueses têm vivido os mais difíceis e árduos tempos da
democracia e devem preparar-se para que estes sacrifícios perdurem e
se agravem. Mas também os actores políticos devem preparar-se para
mudar os seus modos e motivações de actuação, para que, para além da
superação da crise económica e financeira, sobreviva o sentido
colectivo de Estado num clima de paz social contratualizada entre o
Povo e o Estado. E este clima, hoje que o Povo português, graças à
Democracia, foi dotado de instrução e cultura cívica e democrática,
exige racionalidade, linearidade, igualdade de oportunidades, justiça
equitativa, justificação social e fundamentação democrática das
decisões políticas do Estado.

Portugal não pode andar a promover acções de charme no estrangeiro
para se tornar apelativamente um país atractivo ao investimento e
deixar uma imagem externa de um Estado quase pária. A CNPD tem
competências comunitárias, europeias e internacionais, interagindo com
países de todo o mundo, os SIRP comunicam diariamente com os serviços
congéneres de todo o mundo, mas sobretudo dos países aliados de
Portugal e os países da União Europeia, e todos estes serviços e
países conhecem a situação da CNPD e a necessidade incontornável da
sua resolução de modo inquestionavelmente adequado e democrático. As
patologias, quando não resolvidas, tendem a alastrar.

Portugal tem conhecido, para além da crise económica e financeira,
fenómenos estranhos e preocupantes. A título de mero exemplo,
salientam-se a lista de agentes dos SIRP que foi divulgada e difundida
quando remetida para a AR para efeitos de reserva de lugares de
estacionamento, com fuga inadmissível de informação confidencial; a
difusão disseminada de informações negativas e alarmantes sobre uma
entidade bancária com origem desconhecida porque anónima; o ataque
electrónico ao sítio do sindicato das forças policiais com divulgação
e difusão de dados pessoais do foro privado dos agentes desses órgãos
de polícia criminal; o ataque ao sítio da Internet da Liga Portuguesa
de Futebol Profissional com divulgação e difusão dos dados pessoais
dos árbitros de futebol; a remissão da origem dos ataques informáticos
para os Estados Unidos da América; a difusão da mensagem ameaçadora de
golpe de Estado em Portugal, com remissão da origem para Espanha.

Por outro lado, os deputados da AR têm mostrado uma preocupação
quase obstinada com a criação de um tipo legal de crime novo para punir o
resultado de actuações criminosas de natureza económica que não se
conseguem investigar e censurar: são os casos do enriquecimento
ilícito, da criminalização dos actos de gestão pública, de
criminalização da gestão dos hospitais quando os orçamentos sejam
ultrapassados, entre outros casos. A imaginação legiferante tem sido
profícua, aliás, com alto risco de cometimento de erros legislativos,
não tendo, de resto, a AR sido o melhor exemplo de rigor e dignidade
institucional na sua competência por excelência: a legislativa. Não
existe melhor exemplo para suportar esta opinião do exponente do que o
processo legislativo do enriquecimento ilícito, desde a sua origem até
à aprovação da sua redacção.

Será, porém, uma contradição insanável e anti-democrática que a AR
continue com esta senda legiferante com o pretexto das patologias no
exercício das funções públicas e não aja em conformidade com a
exigência do que se acaba de expor sobre a CNPD.

Essa exigência reclama a recomposição da Comissão propriamente dita
e a colocação de um novo corpo administrativo dirigente e técnico.

Se assim o Parlamento proceder, mas só se assim o Parlamento
proceder, a Democracia, o Estado de Direito e a dignidade do Estado
não capitularão e não se renderão perante os mais nocivos e ilegítimos
poderes fácticos de métodos chantagistas e de natureza antidemocrática.

Fica o exponente, como tem estado durante este último triénio nas
condições acima descritas por causa da inacção do poder político, à
disposição de Vossa Excelência e do Parlamento para o que for tido por
adequado, conveniente e vantajoso para o regime da protecção de dados
pessoais, para o Estado português, para a Democracia e para Portugal.

Junta: Anexo I, Anexo II e Anexo III e fotocópia do BI.

Com os mais respeitosos cumprimentos, por e ao serviço de Portugal,
Eduardo Campos"



1906
Luta & Resiste!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Camarate - Testemunho de Elza Oliveira exclusivo escrito!



"Conheci o Fernando Farinha Simões (FFS) em 1975, no Hotel Sheraton, numa conferência que aí se realizou. Fui ao Hotel Sheraton a convite do Sr. Nick, que era ministro da Agricultura e Pesca da África do Sul. Aí conheci o FFS, que participava nessa conferência, e que referiu que vivia no Hotel Sheraton.

A partir daí fui várias vezes ao Hotel Sheraton para se encontrar com o FFS. Entre as pessoas que o FFS convivia nessa altura portugueses, americanos, africanos do sul e ingleses. Vivia contudo na Alameda Afonso Henriques nº7 (hoje nº13) 5ºEsq. Em 1976 FFS vem viver comigo para a Alameda Afonso Henriques, deixando assim o Hotel Sheraton. FFS vivei aqui entre 1976 e 1978, ano em que nasceu a nossa filha Iliana Oliveira Simões. Nesse ano fomos viver para Odivelas, na rua dos Lusíadas nº20, 2º andar que alugámos.Vivemos aqui entre 1978 e 1985.

FFS convivia com José Esteves, com o General Rovosco Vaz, Cor. Vinhas, etc.. Eu comecei a trabalhar no cabeleireiro Baeta, no Centro Comercial Alvalade, em 1975. O trabalho de FFS era de alguma forma misterioso, pois FFS nunca me dizia claramente o que fazia. Em 1980 fui com FFS á Av. Duque de Loulé, na parte de cima junto á zona da polícia Judiciária, onde FFS se encontra com 3 ou 4 homens, que me pareceram ser Americanos. FFS tinha combinado com estes senhores encontrarem-se ali, para depois irem em conjunto para a Embaixada dos EUA. Noutra ocasião, a irmã de uma colega minha do cabeleireiro Baeta, chamada Nena e que trabalhava na Embaixada dos EUA, ao ver FFS no cabeleireiro disse, que FFS tinha estado nessa manhã na Embaixada dos EUA.

Entre 1975 e 1978 o FFS, quase todos os dias combinava com colegas, como com o José Esteves, á minha frente para irem para a Embaixada dos EUA. O FFS saía de casa pelas 14 horas, e ia para a Embaixada. Fazia também muitas reuniões no Hotel Sheraton, segundo me contava. Pelo que eu ouvia, o trabalho de FFS era relacionado com serviços secretos, pois dispunham de armas, gramadas, etc.. No trabalho de FFS participavam estrangeiros nomeadamente americanos, alguns dos quais da Embaixada dos EUA, embora eu nunca tenha participado nessas reuniões. Nunca percebi muito bem do que falavam, pois normalmente o FFS falava em código.

O FFS disse-me contudo, já em 1975, que trabalhava para a CIA, e que cada estadia no Hotel Sheraton era paga pela CIA. Recebia normalmente em cada mês, ou de dois em dois meses, e pelo que eu percebia, era pago na Embaixada dos EUA. Viajava para Espanha onde fazia sempre grandes compras para mim e para a minha filha. Tinha um bom nível de vida, traduzido em bom vestuário, pagando as suas compras, em Lisboa, normalmente em US Dollares. As refeições de almoço e jantar eram quase sempre no Hotel Sheraton. Eu contudo nunca quis fazer muitas perguntas sobre estas suas actividades, pois tinha a noção que eram perigosas e muitas vezes ilegais. Tinha portanto medo e preferia não conhecer pormenores.

Em 1977 FFS combina, á minha frente em minha casa, com um colega, ao telefone, que se ia encontrar com Frank Carlucci, no Hotel Sheraton, pelas 15 horas. Para esta reunião, FFS vestiu-se de fato e gravata. Teve esta reunião pelas 15 ou 16 horas. Ao regressar a casa, não comentou o que havia falado nessa reunião.
Entre 1977 e 1980, FFS encontrou-se algumas vezes com Frank Carlucci, segundo eu ouvi em combinações que ele fazia ao telefone, em minha casa. Fiquei com a impressão que muitas das vezes que FFS ia á Embaixada era para falar com Frank Carlucci. Numa ocasião ouvi, de minha casa ao telefone, FFS pedir a Franck Carlucci um visto para um amigo português poder viajar para os EUA, o que Frank Carlucci resolveu. Uma das pessoas para quem FFS conseguiu um visto junto de Frank Carlucci, foi para Jorge Riviera, que era português.

Entre 1975 e 1985 FFS viveu sempre comigo, em Portugal, embora tenha viajado sem mim para países como Inglaterra, Brasil, Colômbia e EUA. Viajava normalmente durante 2 a 4 semanas. Julgo que estas viagens eram pagas pela CIA. Uma dessas vezes FFS foi buscar os bilhetes á embaixada dos EUA. Julgo que na viajem que FFS fez a Londres, pelas descrições que hoje tenho, que FFS viajou acompanhado de Lee Rodrigues.

Em Novembro o FFS marcou um encontro na Av. De Roma, junto ao Teatro Maria Matos. O FFS conduzia o carro, eu saí em frente do Teatro Maria Matos, pelas 15:30 horas, tendo eu ido a pé para o centro comercial de Alvalade. A pessoa com quem FFS se encontrou era molhe, tipo indiano, alto e forte, com leve barriga, de 30 e poucos anos, que hoje acho que é o Sr. Lee Rodrigues. FFS ficou lá a falar com ele.

Em Novembro de 1980 FFS e José Esteves começaram a viver quase sempre em permanente contacto. Nesse mês José Esteves passou a jantar normalmente em minha casa, muitas com a Gina, que era a namorada de José Esteves. FFS começou a falar muitas vezes com José Esteves, normalmente em código. Fiquei claramente com a ideia que estavam a organizar algo em comum. FFS estava então particularmente nervoso, tendo uma tosse nervosa.

Uns dias antes de 4 de Dezembro, o José Esteves disse, em minha casa, depois de jantar, á Gina para ir para casa limpar a marquise, porque no dia seguinte ia a mulher da limpeza limpar a sua casa, para ela não ver o que estava na marquise, pois a marquise tinha pólvora e resíduos de materiais explosivos. Estes materiais tinham sido comprados por José Esteves numa drogaria do Cacém. Para esse efeito, José Esteves sai com FFS e com a Gina num carro de minha casa, e deixa a Gina em sua casa no Cacém, seguindo depois com FFS para Lisboa.

No dia 4 de Dezembro, José Esteves aparece no Cabeleireiro Baeta pelas 20:30 horas, muito nervoso. O José Esteves pediu-me umas moedas para falar ao telefone público para casa do pai do FFS. Mais tarde aparece também lá o FFS, que foi buscar a minha filha na casa dos pais do FFS. José Esteves comenta então para FFS, muito nervoso, “ que tinham virado churrasco”. Pelas 22 horas saí com FFS e José Esteves para minha casa. Nem FFS nem José Esteves me comentaram o que tinha sucedido, mas tanto um como o outro, estavam muito nervosos e apreensivos. Ouviam as notícias da queda do avião na televisão, de uma forma atenta e com um ar comprometido. Comentavam entre eles as notícias num idioma que eu não percebia, José Esteves fez então um telefonema de minha casa para um militar.

Pela 1 hora da manhã José Esteves e FFS saem de casa, no carro do José Esteves. Eu fiquei em casa, FFS regressou passado aproximadamente uma hora, não comentou nada comigo, José Esteves não regressou.
Passado alguns dias perguntei a FFS se tinha sido José Esteves a fazer a bomba desse atentado, ao que o FFS respondeu que sim. FFS disse que foi o João Pedro Dias arranjou uma farda de piloto para o Lee Rodrigues para poder entrar no aeroporto. Perguntei a FFS quem deu ordem para este atentado, ao que FFS me disse que a ordem tinha vindo de fora de Portugal.

Nos dias seguintes ao atentado reparava que tanto FFS como José Esteves andavam apreensivos com as possíveis consequências, temendo que alguma coisa lhes pudesse suceder.
Nos dias seguintes ao atentado, José Esteves passa a vir menos vezes a minha casa. Mas continuava a falar com FFS, com quem se encontrava frequentemente.

Passado cerca de um mês do atentado, José Esteves, em minha casa, refere a FFS que tem estado várias vezes em contacto com um militar, tanto pelo telefone, como pessoalmente, a quem pediu protecção por causa deste atentado. Esse militar com quem falava frequentemente, estava ao corrente do que tinha sucedido em Camarate, através, pelo menos, de José Esteves, José Esteves refere então estar mais tranquilo, pois esse militar lhe disse que o protegeria. Pelo que sei hoje, julgo que esse militar era o Cor. Lencastre Bernardo. Sei contudo que José Esteves falava também pelo telefone, de minha casa para outra pessoa, para o proteger deste assunto, que tinha um sotaque do norte de Portugal.

Depois José Esteves deixou de aparecer em minha casa, pois apesar desse contacto com o militar, tinha sempre medo de ser preso, como referiu frequentemente a FFS. Deixou inclusivamente de viv er no Cacém, passando a estar em parte incerta.

Em 1985, o FFS disse-me que o José Esteves tinha recebido uma ordem para sair de Portugal, porque se estava a falar muito de Camarate. Com efeito José Esteves é então informado de que corre perigo de ser preso por causa de Camarate, como ele próprio me referiu, e FFS confirmou. As comissões de Inquérito Parlamentares sobre Camarate também estavam a falar cada vez mais neste assunto e de José Esteves. Foi para o Brasil via Madrid. Eu e o FFS fomos também para o Brasil, pouco tempo depois do José Esteves. No Brasil FFS comentou-me que José Esteves estava no Brasil por causa de Camarate.

No Brasil vivia um pouco assustada pela vida que FFS levava, pelo que nunca lhe perguntei como é que ele ganhava a vida. Via contudo que FFS tinha frequentemente US Dollares no bolso. Sei contudo que continuava a trabalhar para os americanos da embaixada dos EUA em Lisboa, pois de nossa casa falava com eles ao telefone. FFS vem contudo várias vezes a Lisboa, enquanto eu fico no Brasil, em Santa Catarina. FFS vai também muitas vezes ao Rio de Janeiro.

Voltei para Portugal em 1994, quando FFS já estava a viver novamente em Portugal. Trabalhei no cabeleireiro Isabel Queiroz do Vale, e mais tarde no Cabeleireiro Marina Cruz. Falei sobre Camarate com Augusto Cid e também com Pedro Amaral da PJ. Pedro Amaral referiu-me contudo não querer falar sobre Camarate, pois tinha sido muito prejudicado por este assunto. FFS foi preso em 1995, acusado de tráfego de droga. Por outro lado, não sabia do paradeiro de José Esteves, e não o voltei a encontrar. Só o voltei a ver no lançamento do livro da Inês Serra Lopes.

Aproximadamente em 1996, fui á Comissão de Inquérito Parlamentar sobre Camarate, onde contei tudo o que sabia sobre Camarate, menos a ligação de FFS á Embaixada americana e á CIA. Não falei porque tinha medo de prejudicar o FFS e de que alguma coisa me pudesse suceder, pois a CIA era muito poderosa e perigosa, e FFS estando preso, não me podia defender.

Depois desta minha intervenção na Assembleia da República, passei a andar com a protecção de dois polícias, durante seis meses. Apesar disso, um dia o meu carro foi roubado, durante 15 dias, até ser encontrado no Cacém. Aparece com papagaios dentro do carro, com muitas penas, o que eu associei desde logo a José Esteves, pois nessa altura criava papagaios em casa. Foi uma forma de José Esteves me mostrar que não gostou que eu tivesse ido falar sobre Camarate á Assembleia da República. José Esteves disse-me, mais tarde, que nunca pensou que eu alguma vez contasse o que sabia sobre Camarate.

Também depois da minha ida á Assembleia da República, fui uma vez aos Serviços de Estrangeiros e Fronteira, na Av. António Augusto Aguiar, para renovar o meu visto, que era dirigido pelo Cor. Lencastre Bernardo. Surpreendentemente fui obrigada a esperar cerca de 3 horas sem justificação, pois estava totalmente legal em Portugal. Liguei para o Inspector Pedro Amaral por causa desta situação, e pouco tempo depois o assunto foi resolvido e pude sair. Não tive dúvidas que essa demora, injustificada, de mais de três horas foi provocada por Lencastre Bernardo, como retaliação da minha ida á Assembleia da República, onde falei sobre ele. A minha ida a este Serviço era muito simples, e por isso, embora não possa provar, não tenho dúvidas que foi uma retaliação de Lencastre Bernardo, que Pedro Amaral já me tinha dito tratar-se de uma pessoa perigosa."


1906

Luta & Resiste!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Comunicado AAS



Recebemos da Associação de Adeptos do Sporting Clube de Portugal, o seguinte comunicado que passamos a transcrever:

"O comunicado hoje emitido pela União Desportiva deLeiria-Futebol SAD (UD Leiria), merece da Associação de Adeptos Sportinguistas(AAS), os seguintes comentários:


1)Caso se venha a confirmar a falta de comparência daUD Leiria ao próximo jogo da principal Liga do Campeonato Português, com aconsequente desistência desta competição, a responsabilidade por (mais) estapágina negra do futebol nacional deverá ser assacada, não só aos dirigentes daUD Leiria, mas sim a TODOS os dirigentes dos clubes inseridos nas Ligasprofissionais que, nas últimas décadas, em lugar de procurarem soluções quepermitissem viabilizar, a longo prazo, a competição ao mais alto nível emPortugal, apostaram em verdadeiras “fugas para a frente”, em que a total faltade controlo financeiros dos clubes tinha como reacção, das mais altasinstâncias do futebol português, a completa permissividade com esta (má) gestãorecorrente. Exemplos de clubes com ordenados em atraso em Portugal não faltam,pelo que não se pense que a UD Leiria é o único caso existente…


2)Neste contexto, em que nos deparamos com umasituação digna de campeonatos do terceiro mundo, estar a aprovar (ou sequer adiscutir!) o alargamento da I Liga, é mais um acto que demonstra a totalirresponsabilidade por parte dos dirigentes desses clubes e da própria LigaPortuguesa de Futebol Profissional, a quem cabe, em última instância, assegurarequilíbrio na gestão dos campeonatos profissionais e nos próprios clubesinseridos nessas competições. Esses dirigentes, responsáveis por esta situaçãotriste e vergonhosa a que chegou o futebol em Portugal, estão, mais uma vez, atratar um doente terminal com aspirinas…


3)O estado a que chegou a UD Leiria, presentemente,é (mais) uma prova que o modelo das Sociedades Anónimas Desportivas (SAD’s)está completamente falido, tendo sido encarado por esta geração de dirigentesdo futebol nacional como mais uma panaceia (como, em tempos, o foram o bingo eas bombas de gasolina) para resolver “em cima do joelho” um problema de fundo,que deveria ter sido encarado como tal. É também mais uma prova que os adeptose associados dos clubes portugueses não podem e não devem abdicar de exigir,constantemente, que os seus clubes sejam geridos de forma responsável, o querequer, também, da sua parte, um maior activismo no sentido de garantir que osclubes da sua paixão não tenham o fim que já tiveram o Boavista, o Farense, oSalgueiros e, ao que tudo indica, a UD Leiria…


4)Desconhecendo a possibilidade desta situaçãopoder vir a beneficiar alguém, prejudicando na generalidade o futebol nacional,não gostaria a AASde terminar sem apelar à Federação Portuguesa de Futebol(FPF), instituição dotada de utilidade pública desportiva, e à Secretaria deEstado da Juventude e Desporto para, de uma vez por todas, zelar pelosinteresses do futebol português e lançar mãos à obra para o salvar, nãopermitindo que ele fique à mercê de um qualquer suposto…Salvador!


Comité Executivo

Associação de Adeptos Sportinguistas"


1906 Luta & Resiste!

No aeroporto de Alvalade

l

Aterraram segundo as notícias de hoje, 190 milhões de euros, provenientes de capitais de empresas estatais chinesas State Grid e Three Gorges!

Com um dono os sócios não riscam mais nada...

Na verdade agora tambem riscavam pouco, era-lhes apenas dada a ilusão conveniente e apaziguadora que mandavam, para na altura vir o tradicional: não se preocupem que nós temos gente bonita, muito inteligente, bem falante e tambem bem vestida a tomar conta da ocorrência e apesar de vocês pensarem A, nós achamos B e na realidade vai ser B como aliás vocês vão escolher, livremente e em democracia!

O facto de sermos o quintal das elites, faz com que o Sporting esteja transformado num tubo de ensaio de experiências sociais e que seja pioneiro numa serie de assuntos!

O bom senso, a própria matriz associativa que deveria reger por defenição é esquecida, e a grande tendência é levar as pessoas a acreditar em oráculos como este!

Votaram contra? eram precisos mais de setenta e tal por cento para a proposta passar...teve sessenta e tal? Não faz mal...de qualquer maneira não precisavamos de apresentar isto aos sócios, está aqui num alçapão juridico que conseguimos encontrar!!! Mas o facto é que apresentaram, o facto é que a proposta chumbou, o facto é que mais ninguem disse nada! Porquê? Porque mais uma vez os sócios foram encostados á parede com a velha história do somos nós ou o caos, tudo isto com a cumpicidade da comunicação social, que amplia os ecos da voz do dono!!!

Mas que independência? que liberdade de pensamento e de escolha?

Alguem pode arvorar-se ao direito de dizer que decide informado?

Ensinaram-nos a demitir-nos do nosso Sportinguismo e a confiar cegamente no querido lider, independentemente de quem seja que se senta na cadeira da direcção, não é?

Transferindo a mesma lógica para o país tivemos 2/3 partidos no poder, que foram rodando a gamela de forma a todos irem comendo do mesmo tachp, quando uns estavam no poder, os outros estavam nos cargos de direcção de empresas publicas era o jogo dos muda aos 4 ou então aos 8 e acaba aos quantos? Até quando é que se vai continuar a jogar este jogo que nos trouxe hoje ao patamar onde nos encontramos hoje?

Se uma pessoa pensa pela própria cabeça, é logo rotulado de um perigoso agitador e de ser anti-sportinguista ou que está colocar em risco os interesses da nação, quem não alinha no que é assobiado pelos fazedores de opinião, quem exerce o seu Sportinguismo ou os seus deveres de cidadania em prol do Clube ou neste caso do País nunca vai ter uma vida fácil, não pensar e acima de tudo não fazer é a garantia de que tudo continua na mesma, e quem está no poder precisa dessa establidade não é assim?

No Sporting tal como no país, promove-se o medo e a desinformação, através do medo e da desinformação no presente, condiciona-se o futuro - esta é a receita!

...E no Sporting tal como no País em receita que ganha não se mexe!


TU PENSAS OU OBEDECES?


1906
Luta & Resiste!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Atentado CAMARATE - A confissão!!! Exclusivo Escrito





"Eu Fernando Farinha Simões {O mais baixo de bigode, o outro é o ex-presidente Franco}, decidi finalmente, em 2011, contar toda a verdade sobre Camarate. No passado nunca contei toda a operação de Camarate, pois estando a correr o prrocesso judicial, poderia ser preso e condenado. Tambem porque durante 25 anos não podia falar, por estar obrigado por parte da CIA, mas esta situação mudou agora, ao que acresce o facto da CIA, me ter abandonado completamente desde 1989. Finalmente decidi falar por obrigação de consciência.
Fiz o meu primeiro depoimento sobre Camarate, na Comissão de Inquérito parlamentar, em 1995. Mais tarde prestei alguns depoimentos em que fui acrescentandofactos e informações. Cheguei a prestar declarações para um programa da SIC, organizado por Emilio Rangel, que não chegou contudo a ir para o ar. Em todas essas declarações públicas contei factos sobre o atentado de Camarate, que nunca foram desmentidos, apesar dos nomes que citei e da gravidade dos factos que referi. Em todos esses relatos, eu desmenti a tese oficial de acidente, defendida pela Polícia Judiciária e pela Procuradoria Geral da República. Nunca tive duvidas de que as Comissões de Inquérito Parlamentares estavam no caminho certo, pois Camarate foi um atentado. Devo também dizer que tendo eu falado de factos sobre Camarate tão graves, e do envolvimento de certas pessoas nesses factos, sempre me surpreendeu que essas pessoas tenham preferido o silêncio. Então neste caso o {agraciado em 2001 como CGO da Ordem Militar de Cristo em 2001, envolvido com Roquette e Dias Loureiro na Plêiade/BPN} Tenente Coronel Lencastre Bernardo ou o Major Canto e Castro. Se se sentissem ofendidos pelas minhas declarações, teria sido lógico que tivessem reagido. Quanto a mim, este seu silêncio só pode significar que, tendo noção do que fizeram, consideram que quanto menos se falar neste assunto melhor.


2. Nessas declarações que fiz, desde 1995, fui relatando, sucessivamente, apenas parte dos factos ocorridos, sem nunca ter feito a narração completa dos acontecimentos. Estávamos ainda relativamente próximos dos acontecimentos, e não quis portanto revelar todos os pormenores, nem todas as pessoas envolvidas nesta operação. Contudo, após terem passado mais de 30 anos sobre os factos ocorridos, entendi que todos os portugueses tinham o direito de conhecero que verdadeiramente sucedeu em Camarate. Não quero contudo deixar de referir, que estou hoje profundamente arrependido de ter participado nesta operação, não apenas pelas pessoas que aí morreram, e cuja a qualidade humana só mais tarde tive ocasião de conhecer, como o prejuízo que constituiu, para o futuro do País, o desaparecimento dessas pessoas. Nesta altura contudo, Camarate era apenas mais uma operação em que participava, pelo que não medi as consequências. Peço por isso desculpa aos Familiares das vítimas, e aos portugueses em geral, pelas consequências da operação em que participei.
Gostaria assim de voltar atrás no tempo, para explicar como acabei por me envolver nesta operação. Em 1974 conheci na Afica do Sul, a agente dupla alemã, Uta Gerveck, que trabalhava para a BND – Serviços de Inteligência Alemães Ocidentais, e ao mesmo tempo para a Stassi. A cobertura legal de Uta Gerveck é feita através do Conselho Mundial das Igrejas (uma espécie de ONG), e é através dessa fachada que viaja practicamente pelo mundo todo, trabalhando ao mesmo tempo para a BND e para a Stassi.

3. Fez um livro em alemão que me dedicou, e que ainda tenho, sobre a luta de libertação do PAIGC na Guiné Bissau. O meu trabalho para a Stassi veio contudo a verificar-se posteriormente, quando já estava a trabalhar para a CIA. A minha infiltração na Stassi dá-se por convite de Uta Gerveck, em 1976, com a concordância da CIA, pois isso interessava-lhes muito.
Uta Gerveck apresenta-me, em 1978, em Berlim Leste a Marcus Wolf, então director da Stassi. Fui para este efeito então clandestinamente a Berlim Leste, com um passaporte espanhol, que me foi fornecido por Uta Gerveck. O meu trabalho de infiltração na Stassi consistiu na elaboração de relatórios pormenorizados acerca das “toupeiras” infiltradas na Alemanha Ocidental pela Stassi, que actuavam nomeadamente junto a Helmut Khol, Helmut Shmidt e de Hans Jurgen Wischewski. Hans Jurgen Wischewski era o responsável pelas relações e contactos entre a Alemanha Ocidental e de Leste, sendo presidente da Associação Alemã de Cooperação e Desenvolvimento ( ajuda ao terceiro mundo), e também ia ás reuniões do Grupo Bilderberg. vIabilizou também muitas operações clandestinas, nos anos 70 e 80, de ajuda a grupos de libertação, apartir de da Alemanha Ocidental. Estive também na Academia da Stassi, várias vezes em Postdan – Eiche.
Relativamente ao relato dos factos, gostaria de começar por referir que tenho contactos, desde 1970, em Angola, com um agente da CIA, que é o jornalista e apresentador Paulo Cardoso ( já falecido). Conheci Paulo Cardoso em Angola, com quem trabalhei na TVA – Televisão de Angola na altura.



4. Em 1975, formei em Portugal, os CODECO com José Esteves, Vasco Montez, Carlos Miranda e Jorge Gago ( já falecido). Esta organização pretendia defender, em Portugal, se necessário por via da guerrilha, os valores do mundo Ocidental => Ver operação Gladio!!!!
Através de Paulo Cardoso, sou apresentado, em 1975, no Hotel Sheraton, em Lisboa, a um agente da CIA, antena, ( recolha de informações), chamado Philip Snell. Falei então, durante algum tempo, com Philip Snell. O Paulo Cardoso estava então a viver no Hotel Sheraton. Passados poucos dias, Philip Snell diz-me para levantar gratuitamente, um bilhete de avião, de Lisboa para Londres, a uma ag~encia de viagens na Av. De Ceuta, que trabalhava para a embaixada dos EUA. Fui então a uma reunião em Londres, onde encontrei um amigo antigo, Gary Van Dyk, da Afica do Sul, que colaborava com a CIA.

Fui então entrevistado pelo chefe de estação da CIA para a Europa que se chamava Jonh Logan. Gary Van Dyk defendeu nessa reunião, a minha entrada para a CIA, dizendo que me conhecia bem de Angola, e que eu trabalhava com eficiência. Comecei então a trabalhar para a CIA, tendo também para esse efeito pesado o facto de ter anteriormente colaborado com a NISS – National Intelligence Security Service ( Agência Sul Africana de Informações). Gary Van Dyk era o antena, em Londres, do DONS- Department Operational of National Security (Sul Africana).

Regressado a Lisboa, trabalhei para a embaixada dos EUA, em Lisboa, entre 1975 e 1988, a tempo inteiro. Entre 1976 e 1977, durante cerca de um ano e meio, vivi numa suite no Hotel Sheraton em Lisboa, o que pode ser comprovado, tudo pago pela embaixada dos EUA. Conduzia então um carro com matricula diplomática, um Ford, que estacionava na garagem do Hotel. Nesta suite viveu também a minha mulher Elza, já grávida da minha filha Eliana.

5. O meu trabalho incluía recolha de informações e contra informações, informações sobre o tráfico de armas, de operações de combate ao tráfico de armas, de operações de combate ao tráfico de droga, informações sobre terrorismo, recrutamento de informadores, etc. Estas actividades incluem contactos com serviços secretos de outros países, como a Stassi, a Mossad, e a “Boss” (Sul Africana), depois NISS, depois DONS e actualmente SASS. Era pago em Portugal, recebendo cerca de USD 5.000 por mês. Nestas actividades facilita o facto de eu falar 6 linguas. Actuei utilizando vários nomes diferentes, com passaportes fornecidos pela embaixada dos EUA em Lisboa. Facilita também o facto de falar um dialecto Angolano o Kimbundo.

A embaixada dos EUA tinha também uma casa de recuo na Quinta da Marinha que me estava entregue, e onde ficavam frequentemente agentes e militares americanos, que passavam por Portugal. Era a vivenda “Alpendrada”.
A partir de 1975, como referi, passei a trabalhar directamente para a CIA. Contudo, a partir de 1978, passei a trabalhar como agente encoberto, no chamado “ Office of Special Operations”, a que se chamava serviços clandestinos, e que visavam observar um alvo, incluindo perseguir, conhecer e eleiminar esse alvo, em qualquer pais do mundo, exepto nos EUA. Por pertencermos a este Office, éramos obrigados a assinar uma clausula que se chamava “Plausible denial”, que significa que se fossemos apanhados nestas operações com documentos de identificação falsos, a situação seria por nossa conta e risco, e a CIA nada teria a ver com essa situação. Nessa circunstância, tínhamos o discurso preparado para explicar o que estávamos a fazer, incluindo estarmos preparados para aguentar a tortura. Trabalhei para o Office of Special Operations até 1989, ano em que saí da CIA.


7. Para fazer face a estes trabalhos e operações, as minhas contas dos cartões de crédito do VISA, Amercan Express e Dinners Club, tinham cada uma, um plafond de 10000 USD, que podiam ser movimentados em caso de necessidade. Estes cartões eram emitidos no Brasil, em bancos estrangeiros sedeados no Brasil, como o Citibank, po Bank of Boston ou o Bank of America. Entre 1975 e 1989, portanto durante cerca de 14 anos, gastei com estes cartões cerca de 10 milhões de USD, em operações em diversos países, nomeadamente pagando a informadores, políticos, militares, homens de negócios, e também a traficantes de armas e de droga, em ligação com a DEA (Drug Enforcement Agency). Existiram outros valores movimentados á parte, a partir de um saco azul “ em cash”, valores esses postos á disposição pelo chefe de estação da CIA, do local onde as operações eram realizadas. Este saco azul servia para pagar despesas como viajens, compras necessárias, etc.

Posso referir que a operação Camarate, que a seguier irei transcrever custou, a preços de 1980, entre 750.000 e 1 milhão de USD. Só o Sr. José António dos Santos Esteves recebeu 200.000 USD. Estas despesas relacionadas com a operação Camarate, incluíram os pagamentos a diversas pessoas e participantes, como o Sr. Lee Rodrigues, como seguidamente irei descrever.
Ente 1975 e 1988, participei em vários cursos e seminários em Langley, Virginia e Quantico, pago pela CIA, sobre informações, desinformação, contra-informação, terrorismo, contra-terrorismo, infiltrações encobertas, etc, etc.



8. Trabalhei em serviços de infiltração pela CIA e pela DEA, em diferentes países, como Portugal, El Salvador, Bolivia, Colômbia, Venezuela, Peru, Guatemala, Nicarágua, Panamá, Chile, Líbano, Síria, Egipto, Argélia, Marrocos e Filipinas.
A minha colaboração com a DEA, iniciou-se em 1981, através de Richard Lee Armitage. Em 1980, Richard Armitage viria também a estar comigo e com Henry Kissinger em Paris. Richard Armitage era membro do CFR ( Council for Foreign Affairs and Relations) e da Organização e Cooperação para a Segurança da Europa (OSCE), criada pela CIA. Richard Armitage era também membro na altura, do grupo Carlyle, do qual o CEO era Frank Carlucci. O grupo Carlyle dedica-se á construção civil, imobiliário e é um dos maiores grupos de tráfico de armas do mundo, junto com o grupo Halliburton, chefiado por Richard “ Dick” Cheney. O Grupo Carlyle pertence a vários investidores privados dos EUA, por regra do Partido Republicano. Este grupo promove nomeadamente vendas de armas, petróleo e cimento para países como o Iraque, Afeganistão e agora para países da primavera árabe.

A lavagem do dinheiro do tráfico de armas e da droga era feito na altura, pelo Banco BCCI, ligado á CIA e á NSA – National Security Agency. O BCCI foi fundado em 1972 e fechado no principio dos anos 90, devido aos diversos escândalos em que esteve envolvido.

Oliver North pertencia ao Conselho Nacional de Segurança, ás ordens de William Walker, ex-embaixador dos EUA em El Salvador. Oliver North seguiu e segue sempre as ordens da CIA, dependente de William Casey. Oliver North está hoje retirado da CIA, e é o CEO de vários grupos privados americanos tal como Frank Carlucci.



9. Da DEA conheci Celerino Castillo, Mike Levine, Anabelle Grimm e Brad Ayers, tendo trabalhado para a DEA entre 1975 e 1989. Da CIA trabalhei também com Tosh Plumbey, Ralph Mcgehee – Tenente coronel da NSA, actualmente reformado. Da Cia trabalhei ainda com BO Gritz e Tatum. Estes dois agentes tinham a sua base de operações em El Salvador, ( onde eu também estive, nos anos 80, durante o tráfico Irão-Contras), desenvolvendo nomeadamente actividades de tráfico de armas. Uma das suas operações consistiu no transporte de armas dos EUA para El Salvador, que eram depois transportadas para o Irão e a Nicarágua. Os aviões, normalmente panamianos e colombianos, regressavam depois para os EUA com droga, nomeadamente cocaína, proveniente de países como a Colombia, Bolivia e El Salvador, que serviam para financiar a compra de armas. Esta actividade desenvolveu-se essencialmente desde os finais dos anos 70 até 1988.

A cocaína vinha nomeadamente da Ilha Norman´s Cay, nas Bahamas, de que era proprietário Carlos Lheder Rivas. Carlos Rivas era um dos chefes do cartel de Medellin, trabalhando para este cartel e para ele próprio. Carlos Rivas era, neste contexto, um personagem importante, sendo o braço direito de Roberto Vesco, que trabalhava para a CIA e para a NSA. Roberto Vesco era proprietário de bancos nas Bahamas, nomeadamente o Columbus Trust. Carlos Rivas fazia toda a logística de Roberto Vesco e forneciam armas a troco de cocaína, nomeadamente ao movimento de guerrilha colombiano M19. Roberto Vesco está hoje refugiado em Cuba.



10. O dinheiro das operações de armas e de droga são lavadas no Banco BCCI e noutros bancos, com o nome de código "Amadeus". Há no entanto contas activas nas Bahamas e em Norman's Cay, nas Ilhas Jersey, que gerem contas bancárias, nomeadamente para o tráfico de armas para os “Contras” da Nicarágua, e para o Irão.

Como acima referi, muito desse dinheiro foi para bancos americanos e franceses, o que em parte explicará porquê é que Manuel Noriega foi condenado a 60 anos de prisão, tendo primeiro estado preso nos EUA, depois em França, e actualmente no Panamá. Foi preso porque era conveniente que estivesse calado, não referindo nomeadamente que partilhava com a CIA, o dinheiro proveniente da venda de armas e da venda de drogas. Noriega movimentava contas bancárias em mais de 120 bancos, com conhecimento da CIA. Noriega fazia também parte da operação Black Eagle, dedicada ao tráfico de armas e de droga, que em 1982 se transformou numa empresa chamada Enterprise, com a colaboração de Oliver North e de Donald Gregg da CIA. Em face do grau de informações e de conhecimento que tinha, é fácil de perceber porquê se verificou o derrube e a prisão de Noriega. Devo dizer que estou pessoalmente admirado que não o tenham até agora “suicidado", pois deve ter muitos documentos ainda guardados. Noriega tinha a intenção de contar tudo o que sabia sobre este tráfico, nomeadamente sobre os serviços prestados à CIA e a Bush Pai, tendo por isso sido preso. Washington e a CIA são assim veículos importantes do tráfico de armas e de droga, utilizando nomeadamente os pontos de apoio de South Flórida e do Panamá.



11.No início dos anos 80 conheci um traficante do cartel de Cali, de nome Ramon Milian Rodriguez, que depois mais tarde perante uma comissão do Senado Americano, onde falou do tráfico de armas e de droga, do branqueamento de dinheiro, bem como das cumplicidades de Oliver North neste tráfico às ordens de Bush Pai e do Donald Gregg.

Muito do dinheiro gerado nessas vendas foi para bancos americanos e franceses. Este dinheiro servia também para compras de propriedades imobiliárias. Por estar ligado a estas operações, Noriega foi preso pelos EUA.

Foi numa operação de droga que realizei na Colômbia e nas Bahamas, em 1984, onde se deu a prisão de Carlos Lheder Rivas, do Cartel de Medallin, em que eu não concordei com os agentes da DEA da estação de Maiami, pois eles queriam ficar com 10 milões de dólares e com o avião "lear-jet" provenientes do tráfico de droga. Não concordando, participei desses agentes ao chefe da estação da DEA de Miami. Este chefe mandou-lhes então levantar um inquérito, tendo sido presos pela própria DEA. A partir de aí a minha vida tornou-se num verdadeiro inferno, nomeadamente com a realização de armadilhas, e detenções, tendo acabado por sair da CIA em 1989, a conselho de Frank Carlucci. O principal culpado da minha saida da CIA foi e da DEA foi John C. Lawn, director da estação da DEA e amigo de Noriega e de outros traficantes. John Lawn encobriu, ou tentou encobrir, todos os agentes da DEA que denunciei aquando da prisão de Carlos Rivas. Após a minha saída da CIA, Frank Carlucci continuou contudo a ajudar-me com dinheiro, com conselhos e com apoio logístico, sempre que eu precisei até 1994.

Regressando contudo à minha actividade em Portugal, anteriormente a Camarate e ao serviço da CIA, devo referir que conheci Frank Carlucci, em 1975, através de duas pessoas: um jornalista Português da RTP, já falecido, chamado Paulo Cardoso de Oliveira, que conhecera em Angola, e que era agente da CIA, e Gary Van Dyk, agente da BOSS (Sul Africana) que conheci também em Angola.



12.Mantive contactos directos frequentes com Frank Carlucci, sobretudo entre l975 e 1982, de quem recebi instruções para vários trabalhos e operações. Os meus contactos com Frank Carlucci mantêm-se até hoje, com quem falo ainda ocasionalmente pelo telefone. A última vez que estive com ele foi em Madrid, em 2008, na escala de uma viagem que Frank Carlucci realizou à Turquia.

Em Lisboa, também lidei e recebi ordens de William Hasselberg - antena da CIA em Lisboa, que além de recolher informacões em Lisboa actua como elo de ligação entre portugueses e americanos. Tive inclusivamente uma vida social com William Hasselberg, que inclui uma vida nocturna em Lisboa, em diferentes bares, restaurantes, e locais públicos. William Hasselberg gostava bastante da vida nocturna, onde tinha muito gosto em aparecer com as suas diversas “conquistas” femininas. Trabalhei também com outros agentes da CIA, nomeadamente Philip Agee. Neste ambito, trabalhei em operações de tráfico de armas, e em infiltrações em organizações com o objectivo de obter informações políticas e militares, “Billie” Hasselberg fala bem português, e era grande amigo de Artur Albarran, Hasselberg e Albarran conheceram-se numa festa da embaixada da Colômbia ou Venezuela, tendo Albarran casado nessa altura, nos anos 80, com a filha do embaixador, que foi a sua primeira mulher.



13. Das reuniões que tive com a embaixada americana em Lisboa, a partir de 1978, conheci vários agentes da CIA. O Chefe da estação da CIA em Portugal, John Logan, oferece-me um livro seu autografado. Conheci também o segundo chefe da CIA, Sr. Philip Snell, Sr. James Lowell, e o Sr. Arredondo. Da parte militar da CIA conheci o cor Wilkinson, a partir de quem conheci o coronel Oliver North e o coronel Peter Bleckley. O coronel Oliver North, militar mas também agente da CIA e o coronel Peter Bleckley, são os principais estrategas nos contactos internacionais, com vista ao tráfico e venda de armas, nomeadamente com países como Irão, Iraque, Nicarágua, e o El Salvador. Na sequência do conhecimento que fiz com Oliver North , tendo várias reuniões com ele e com agentes da CIA, por causa do tráfico e negócio de armas. Estas reuniões têm lugar em vários países, como os EUA, o México, a Nicarágua, a Venezuela, o Panamá. Neste último país contacto com dois dos principais adjuntos de Noriega, José Bladon, chefe dos serviços secretos do Panamá, que me disse que práticamente todos os embaixadores do Panamá em todo o Mundo estavam ao serviço de Noriega.

Blandon pediu-me na altura se eu arranjava um Rolls Royce Silver Spirits, para o embaixador do Panamá em Lisboa, o que acabei por conseguir. Em meados de 1980, Frank Carlucci refere-me, por alto, e pela primeira vez, que eu iria ser encarregue de fazer um "trabalho" de importância máxima e prioritária em Portugal, com a ajuda dele, da CIA, e da Embaixada dos EUA em Portugal, sendo-me dado, para esse efeito, todo o apoio necessário.

Tenho depois reuniões em Lisboa, com o agente da CIA, Frank Sturgies, que conheço pela primeira vez. Frank Sturgis é uma pessoa de aspecto sinistro e com grande frieza, e é organizador das forças anti-castristas, sediadas em Miami, e é elo de ligação com os "contra" da Nicarágua. Frank Sturgis refere-me então, que está em marcha um plano para afastar, definitivamente, (entenda-se eliminar) uma pessoa importante, ligada ao Governo Português de então, sem dizer contudo ainda nomes.



14.Algum tempo depois, possívelmente em Setembro ou Outubro de 1980, jogo ténis com Frank Carlucci quase toda a tarde, na antiga residência do embaixador dos EUA, na Lapa. Janto depois com ele, onde Frank Carlucci refere novamente que existem problemas em Portugal para a venda e transporte de armas, e que Francisco Sá Carneiro não era uma pessoa querida dos EUA. Depois já na sobremesa, juntam-se a nós o General Diogo Neto, o Coronel Vinhas, o Coronel Robocho Vaz e Paulo Cardoso, onde se refere novamente a necessidade de se afastarem alguns obstáculos existentes ao negócio de armas. Todos estes elementos referem a Frank Carlucci que eu sou a pessoa indicada para a preparação e implementação desta operação.

Em Outubro de 1980, num juntar no Hotel Sheraton onde participo eu, Frank Sturgies (CIA), Vilfred Navarro (CIA), o General Diogo Neto e o Coronel Vinhas (já falecidos), onde se refere que há entraves ao tráfico de armas que têm de ser removidos. Depois há um outro jantar também no Hotel Sheraton, onde participam, entre outros, eu e o Coronel Oliver North, onde este diz claramente que "é preciso limar algumas arestas" e "se houver necessidade de se tirar alguém do caminho, tira-se", dando portanto a entender que haverá que eliminar pessoas que criam problemas aos negócios de venda de armas. Oliver North diz-me também que está a ter problemas com a sua própria organização, e que teme que o possam querer afastar e "deixar cair", o que acabou por acontecer.




15.Há também Portugueses que estavam a beneficiar com o tráfico de armas, como o Major Canto e Castro, o General Pezarat Correia, Franco Charais e o empresário Zoio. Sabe-se também já nessa altura que Adelino Amaro da Costa estava a tentar acabar com o tráfico de armas, a investigar o fundo de desenvolvimento do Ultramar, e a tentar acabar com lobbies instalados. Afastar essas duas pessoas pela via política era impossível, pois a AD tinha ganho as eleições. Restava portanto a via de um atentado.
Passados alguns dias, recebo um telefonema do Major Canto e Castro (pertencente ao conselho da revolução), que eu já conhecia de Angola, pedindo para eu me encontrar com ele no Hotel Altis. Nessa reunião está também Frank Sturgis, e fala-se pela primeira vez em "atentado", sem se referirem ainda quem é o alvo. referem que contam comigo para esta operação. O Major Canto e Castro diz que é preciso recrutar alguém capaz de realizar esta operação.

Tenho depois uma segunda reunião no Hotel Altis com Frank Sturgies e Philip Snell, onde Frank Sturgis me encarrega de preparar e arranjar alguns operacionais para uma possível operação dentro de pouco tempo, possívelmente dentro de 2 ou 3 meses. Perguntam-me se já recrutou a pessoa certa para realizar este atentado, e se eu conheço algum perito na fabricação de bombas e em armas de fogo. Respondo que em Espanha arranjaria alguém da ETA para vir cá fazer o atentado, se tal fosse necessário. Quem paga a operação e a preparação do atentado é a CIA e o Major Canto e Castro. Canto e Castro colabora na altura com os serviços Secretos Franceses, para onde entrou através do sogro na época. O sogro era de Nacionalidade Belga, que trabalhava para a SDEC, os serviços de inteligência franceses, em 1979 e 1980. Canto e Castro casou com uma das suas filhas, quando estava em Luanda, em Angola, ao serviço da Força Aérea Portuguesa. Em Luanda, Canto e Castro vivia perto de mim.

16.Tendo que organizar esta operação, falo então com José Esteves e mais tarde com Lee Rodrigues ( que na altura ainda não conhecia). O elo de ligação de Lee Rodrigues em Lisboa era Evo Fernandes, que estava ligado à resistência moçambicana, a Renamo. Falo nessa altura também com duas pessoas ligadas à ETA militar, para caso do atentado ser realizado através de armas de fogo.

Depois, noutro jantar em casa de Frank Carlucci, na Lapa, na Mansarda, no último andar, onde jantamos os dois sozinhos, Frank Carlucci diz abertamente e pela primeira vez, o que eu tinha de fazer, qual era a operação em curso e que esta visava Adelino Amaro da Costa, que estava a dificultar o transporte e venda de armas a partir de Portugal ou que passavam em Portugal, e que havia luz verde dada por Henry Kissinger e que essa ordem me seria dada directamente de Paris.

Poucos dias depois voo com Philipp Snell para Paris, ficando no Hotel Baltimore, na avenida Bis Kleber. Philip Snell faz uma reserva para um alto cargo dos EUA, no Hotel George V. Depois, juntamente com Philip Snell, desloco-me ao restaurante Fouquet, nos Champs Elisées, onde me encontro com Henri Kissinger e Oliver North. Cumprimento ambos, referindo que sou "o homem deles em Lisboa".



17.Três semanas antes dos atentado, Canto e Castro e Frank Surgies, referem pela primeira vez, que o alvo do atentado é Adelino Amaro da Costa. O Major Canto e Castro afirma que irá viajar para Londres. Frank Sturgies pede-me que obtenha um cartão de acesso ao aeroporto para um tal Lee Rodrigues, que é referido como sendo a pessoa que levará e colocará a bomba no avião.

Recebo depois um telefonema de Canto e Castro, referindo que está em Londres e para eu ir ter lá com ele. Refere-me que o meu bilhete está numa agência de viagens situada na Av. da Republica, junto à pastelaria Ceuta. Chegado a Londres fico no Hotel Grosvenor, ao pé de Victoria Station. Canto e Castro vai buscar-me e leva-me a uma casa perto do Hotel, onde me mostra pela primeira vez, o material, incluindo explosivos, que servirão para confeccionar a "bomba" nesta operação. Essa casa em Londres, era ao mesmo tempo residência e consultório de um dentista indiano, amigo de Canto e Castro, Canto e Castro refere-me que esse material será levado para Portugal pela sua companheira Juanita Valderrama. O Major Canto e Castro pede-me então que vá ao Hotel Altis recolher o material. Vou então ao Hotel acompanhado de José esteves, e recebemos uma mala e uma carta da senhora Juanita, José Esteves prepara então uma bomba destinada a um avião, com esses materiais, com a ajuda de Carlos Miranda.

O Major Canto e Castro volta depois de Londres, encontra-se comigo, e digo-lhe que a bomba está montada. Lee Rodrigues é-me apresentado pelo Major Canto e Castro. Alguns dias depois Lee Rodrigues telefona-me e encontramo-nos para jantar no restaurante Galeto, junto ao Saldanha, juntamente com Canto e Castro, onde aparece também Evo Fernandes, que era o contacto de Lee Rodrigues em Lisboa. Fora Evo Fernandes que apresentara Lee Rodrigues a Canto e Castro. Lee Rofrigues era moçambicano e tinha ligações à Renamo.

19.Nesse jantar alinham-se pormenores sobre o atentado. Canto e Castro refere contudo nesse jantar que o atentado será realizado em Angola. Perante esta afirmação, pergunto se ele está a falar a sério ou a brincar, e se me acha com “cara de palhaço"- fazendo tenção de me levantar. Refiro que, através de Frank Carlucci, já estava a par de tudo. Lee Rodrigues pede calma, referindo depois Canto e Castro que desconhecia que eu já estava a par de tudo, mas que sendo assim nada mais havia a esconder.

Possivelmente em Novembro, é-me solicitado por Philip Snell que participe numa reunião em Cascais, num iate junto á antiga marina (na altura não existia a actual marina). Vou e levo comigo José Esteves. Essa reunião tem lugar entre as 20 e as 23 horas, nela participando Philips Snell, Oliver North, Frank Sturgies, Sydral e Lee Rodrigues e mais cerca de 2 ou 3 estrangeiros, que julgo serem americanos. Nesta reunião é referido que há que preparar com cuidado a operação que será para breve, e falam-se de pormenores a ter em atenção. É referido também os cuidados que devem ser realizados depois da operação, e o que fazer se algo correr mal. A língua utilizada na reunião é o Inglês. José Esteves recebeu então USD 200.000 pelo seu futuro trabalho. Eu não recebi nada pois já era pago normalmente pela CIA. Eu nessa altura recebia da CIA o equivalente a cinco mil dólares, dispondo também de dois cartões de crédito Diner's Club e Visa Gold, ambos com plafonds de 10.000 Doláres.

20.Lee Rodrigues pede-me então que arranje um cartão para José Esteves entrar no aeroporto.
Para este efeito, obtenho um cartão forjado, na mouraria, em Lisboa, numa tipografia que hoje já não existe. Lee rodrigues diz-me também que irá obter uma farda de piloto numa loja ao pé do Coliseu, na Rua das Portas de Santo Antão. A meu pedido, João Pedro Dias, que era carteirista, arranja também um cartão para Lee Rodrigues. Este cartão foi obtido por João Pedro Dias, roubando o cartão de Miguel Wahnon, que era funcionário da TAP. Apenas foi necessário mudar-se a fotografia desse cartão, colocando a fotografia de Lee Rodrigues.

José Esteves prepara então em sua casa no Cacém, um engenho para o atentado. Conta com a colaboração de outro operacional chamado Carlos Miranda, expecialista em explosivos, que é recrutado por mim, e que eu já conhecia de Angola, quando Carlos Miranda era comandante da FNLA e depois CODECO em Portugal. José Esteves foi também um dos principais comandantes da FNLA, indo muitas vezes a Kinshasa.

Depois do artefacto estar pronto, vou novamente a Paris. No Hotel Ritz, à tarde, tenho um encontro com Oliver North, o cor. Wilkison e Philip Snell, onde se refere que o alvo a abater era Adelino Amaro da Costa, Ministro da Defesa.
Volto a Portugal, cerca de 5 ou 6 dias antes do atentado. É marcado por Oliver North um jantar no hotel Sheraton. Nesse jantar aparece e participa um indivíduo que não conhecia e que me é apresentado por Oliver North , chamado Penaguião. Penaguião afirma ser segurança pessoal de Sá Carneiro. Oliver North refere que Penaguião faz parte da segurança pessoal de Sá Carneiro e que é o homem que conseguirá meter Sá Carneiro no Avião. Penaguião afirma, de forma fria e directa que sá Carneiro também iria no avião, "pois dessa forma matavam dois coelhos de uma cajadada! " Afirma que a sua eliminação era necessária, uma vez que Sá Carneiro era anti-americano, e apoiava




21.incondicionalmente Adelino Amaro da Costa na denúncia do tráfico de armas, e na descoberta do chamado saco azul do Fundo de Defesa do Ultramar, pelo que tudo estava, desde o início, preparado para incluir as duas pessoas. Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Fico muito receoso, pois só nesse momento fiquei a conhecer a inclusão de Sá Carneiro no atentado. Pergunto a Penaguião como é que ele pode ter a certeza de que Sá Carneiro irá no avião, ao que Penaguião responde de que eu não me preocupasse pois que ele, com mais alguém, se encarregaria de colocar Sá Carneiro naquele avião naquele dia e naquela hora, pois ele coordenava a segurança e a sua palavra era sempre escutada. No final do jantar, juntam-se a nós três o General Diogo Neto e o Coronel Vinhas.

Fico estarrecido com esta nova informação sobre Sá Carneiro, e decido ir, nessa mesma noite, à residência do embaixador dos EUA, na Lapa, onde estava Frank Carlucci, a quem conto o que ouvi. Frank Carlucci responde que não me preocupasse, pois este plano já estava determinado há muito tempo. Disse-me que o homem dos EUA era Mário Soares, e que Sá Carneiro, devido à sua maneira de ser, teimoso e anti-americano, não servia os interesses estratégicos dos EUA. Mário Soares seria o futuro apoio da política americana em Portugal, junto com outros lideres do PSD e do PS. Aceito então esta situação, uma vez que Frank Carlucci já me havia dito antes que tudo estava assegurado, inclusivamente se algo corresse mal, como a minha saída de Portugal, a cobertura total para mim e para mais alguém que eu indicasse, e que pudesse vir a estar em perigo. Isto é a usual "realpolitik" dos Estados Unidos, e suspeito que sempre será.




22.Três dias antes do atentado há uma nova reunião, na Rua das Pretas no Palácio Roquete, onde participam Canto e Castro, Farinha Simões, Lee Rodrigues, José esteves e Carlos Miranda. Carlos Miranda colaborou na montagem do engenho explosivo com José Esteves, tendo ido várias vezes a casa de José esteves. Nessa reunião são acertados os últimos pormenores do atentado. Nessa reunião, Lee Rodrigues diz que ele está preparado para a operação e Canto e Castro diz que o atentado será a 3 ou 4 de Dezembro. Nessa reunião é dito que o alvo é Adelino Amaro da Costa. No dia seguinte encontramo-nos com Canto e Castro no Hotel Sheraton, e vamos jantar ao restaurante "O Polícia".

No dia 4 de Dezembro, telefono de um telefone no Areeiro, para o Sr. William Hasselberg, na Embaixada dos EUA, para confirmar que o atentado é para realizar, tendo-me este referido que sim. Desse modo, à tarde, José Esteves traz uma mala a minha casa, e vamos os dois para o aeroporto. Conduzo José esteves ao aeroporto, num BMW do José Esteves.

Já no aeroporto, José Esteves e eu entramos no aeroporto, por uma porta lateral, junto a um posto da Guarda Fiscal, utilizando o cartão forjado, anteriormente referido. Depois José Esteves desloca-se e entrega a mala, com o engenho, a Lee Rodrigues, que aparece com uma farda de piloto e é também visto por mim. Depois de cerca de 15 minutos, sai já sem a mala, e sai comigo do aeroporto. Separamo-nos, mas mais tarde José esteves encontra-se novamente comigo no cabeleireiro Baeta, no centro comercial Alvalade. Depois José esteves aparece em minha casa com a companheira da época, de nome Gina, e com um saco de roupa para lá ficar por precaução. Ouvi-mos depois o noticiário das 20 horas na televisão, e José Esteves fica muito surpreendido, pois não sabia que Sá Carneiro também ia no avião.




23.Afirma que fomos enganados. Telefona então para Lencastre Bernardo, que tinha grandes ligações à PJ e à PJ Militar, e uma Ligação ao General Eanes, Lencastre Bernardo tem também ligações a Canto e Castro, Pezarat Correia, Charais, ao empresário Zoio a José António Avelar que era ex-braço direito de Canto e Castro. José Esteves telefona-lhe, e pede para se encontrar com ele. Este aceita, pelo que, pelas 23 horas, José Esteves, eu, e a minha mulher Elza, dirigimo-nos para a Rua Gomes Freire, na PJ, para falar com ele. José Esteves sobe para falar com Lencastre Bernardo que lhe tinha dito que não se preocupasse, pois nada lhe sucederia. Passámos contudo por casa de José Esteves pois este temia que aí houvesse já um conjunto de polícias à sua procura, devido a considerarem que ele estava associado à queda do avião em camarate. José Esteves ficou assim aliviado por verificar que não existia aparato policial à porta de sua casa. Vem contudo dormir para minha casa.

Alguns dias depois falei novamente com Frank Carlucci. A quem manifestei o meu desconhecimento e ter ficado chocado por ter sabido, depois de o avião ter caído, que acompanhantes e familiares do Primeiro Ministro e do Ministro da Defesa também tinham ido no Avião. Frank Carlucci respondeu-me que compreendia a minha posição, mas que também ele desconhecia que iriam outras pessoas no avião, mas que agora já nada se podia fazer.

Em 1981, encontro-me com Victor Pereira, na altura agente da Polícia Judiciaria, no restaurante Galeto, em Lisboa. Conto a Victor Pereira que alguns dos atentados estão atribuidos às Brigadas Revolucionárias, relacionados com a colocação de bombas, foram porém efectuadas pelo José Esteves, como foram os casos dos atentados à bomba na Embaixada de Angola, de Cuba ( esta última com conhecimento de Ramiro Moreira), na casa de Torres Couto, na casa do prof. Diogo Freitas do Amaral, na casa do Eng. Lopes Cardoso, e na casa de Vasco Montez, a pedido deste, junto ao Jumbo em Cascais, para obter sensacionalismo á época, tendo José Esteves espalhado panfletos iguais aos da FP25. Não falei então com Victor Pereira de camarate.

Tomei conhecimento no entanto que Victor Pereira, no dia 4 de Dezembro de 1980, tendo ido nessa noite ao aeroporto da Portela, como agente da PJ, encontrou a mala que era transportada pelo eng. Adelino Amaro da Costa. Nessa mala estavam documentos referentes ao tráfico de armas e de pessoas envolvidas com o Fundo de defesa do Ultramar. Salvo erro, Victor Pereira entregou essa mala ao inspector da PJ Pedro Amaral, que por sua vez a entregou na PJ. Disse-me então Victor Pereira que essa mala, de maior importância no caso de Camarate, pelas informações que continha, e que podiam explicar os motivos e as pessoas por detrás deste atentado, nunca mais voltou a aparecer. Esta informação foi-me transmitida por Victor Pereira, quando esteve preso comigo na prisão de Sintra, em 1986. Não referi então a Victor Pereira que, como descrevo a seguir, eu tinha já tido contacto com essa mala, em finais de 1982, pelo facto de trabalhar com os serviços secretos na Embaixada dos EUA.

Também em 1981, uns meses depois do atentado, eu e o José Esteves fomos ter com o Major Lencastre Bernardo, na Polícia Judiciária, na Rua Gomes Freire. Com efeito, tanto o José Esteves como eu, andávamos com medo do que nos podia suceder por causa do nosso envolvimento no atentado de Camarate, e queríamos saber o que se passava com a nossa protecção por causa de Camarate. Eu não participo na reunião, fico à porta.



24.Contudo José Esteves diz-me depois que nessa conversa Lencastre Bernardo lhe referiu que, numa anterior conversa com Francisco Pinto Balsemão, este lhe havia dito ter tido conhecimento prévio do atentado de Camarate, pois em Outubro de 1980, Kissinger o informou de que essa operação ia ocorrer. Disse-lhe também que ele próprio tinha tido conhecimento prévio do atentado de Camarate. Disse-lhe ainda que podíamos estar sossegados quanto a Camarate, pois não ia haver problemas connosco, pois a investigação deste caso ia morrer sem consequências.

A este respeito gostaria de acrescentar que numa reunião que tive, a sós, em 1986, com Lencastre Bernardo, num restaurante ao pé do edifício da PJ na Rua Gomes Freire, ele garantiu-me que Pinto Balsemão estava a par do que se ia passar em 4 de Dezembro. No restaurante Fouchet's, em Paris, Kissinger tinha-me dito, “por alto”, que o futuro Primeiro Ministro de Portugal seria pinto Balsemão. E importante referir que tanto Henry Kissinger como Pinto Balsemão eram já, em 1980, membros destacados do grupo Bilderberg, sendo certo que estas duas pessoas levavam convidados às reuniões anuais desta organização.

Deste modo, aquando da conversa com Lencastre Bernardo, em 1986, relacionei o que ele me disse sobre Pinto Balsemão, com o que tinha ouvido em Paris, em 1980. Tive também esta informação, mais tarde, em 1993, numa conversa que tive com William Hasselberg, em Lisboa, quando este me confirmou de que Pinto Balsemão estava a par de tudo.




25.Em finais de 1982, pelas informações que vou obtendo na Embaixada dos EUA, em Lisboa, verifico que se fala de nomes concretos de personalidades americanas com tendo estado envolvidas em tráfico de armas que passava por Portugal. Pergunto então a William Hasselberg como sabem destes nomes. Ao fim de muitas insistências minhas, William Hasselberg acaba por me dizer que a Pj entregou, na embaixada dos EUA, uma mala com os documentos transportados por Adelino Amaro da Costa, em 4 de Dezembro de 1980, e que ficou junto aos destroços do avião, embora não me tenha dito quem foi a pessoa da PJ que entregou esses documentos. Peço então a William Hasselberg que me deixe consultar essa mala, uma vez que faço também parte da equipa da CIA em Portugal. Ele aceita, e pude assim consultar os documentos aí existentes. que consistiam em cerca de 200 páginas. Pude assim consultar este Dossier durante cerca de uma semana, tendo-o lido várias vezes, e resumido, à mão, as principais partes, uma vez que não tinha como fotografa-lo ou copia-lo.

Vejo então, que apesar do desastre do avião, e da pasta de Avelino Amaro da Costa ter ficado queimada, e ter sido substituida por outra, os documentos estavam intactos. Estes documentos continham uma lista de compra de armas, que incluia nomeadamente RPG-7, RPG-27, G3, lança granadas, dilagramas, munições, granadas, minas, rádios, explosivos de plástico, fardas, kalashiskovs AK-47 e obuses. Referia-se também nesses documentos que para se iludir as pistas, as vendas ilegais de armas eram feitas através de empresas de fachada, com os caixotes a referir que a carga se tratava de equipamentos técnicos, e peças sobresselentes para maquinas agrículas e para a construção civil. Esta forma de transportar armas foi-me confirmada várias vezes por Oliver North, no decorrer da década de 80, até 1988, e quando estive em Ilopango, no El Salvador, também na década de 80, verifiquei que era verdade.




26.Nestes documentos lembro-me de ver que algumas armas vinham da empresa portuguesa Braço de Prata, bem como referências de vendas de armas de Portugal e de países de Leste, como a Polónia e a Bulgária, com destino para a Nicarágua, Irão, El Salvador, Colombia, Panamá, bem como para alguns países Africanos que estavam em guerra, como Angola, ANC da África do Sul, Nigéria, Mali, Zimbawe, Quénia, Somália, Líbia, etc. Está também claramente referido nesses documentos que a venda de armas é feita através da empresa criada em Portugal chamada "Supermarket" (que operava através da empresa mãe "Black - Eagle").
Nos referidos documentos vi também que as vendas de armas eram legais através de empresas portuguesas, mas também havia vendas de armas ilegais feitas por empresas de fachada, com a lavagem de dinheiro em bancos suíços e "off-shores" em nome dos detentores das contas, tanto pessoas civis como militares.

As vendas ilegais de armas ocorriam por várias razões, nomeadamente: Em primeiro lugar muitos dos países de destino, tinham oficialmente sanções e embargos de armas. Em segundo lugar os EUA não queriam oficialmente apoiar ou vender armas a certos países, nomeadamente aos contra da Nicarágua, ou ao Irão e ao Iraque, a quem vendiam armas ao mesmo tempo, e sem conhecimento de ambos. Em terceiro lugar a venda de armas ilegal é mais rentável e foge aos impostos. Em quanto lugar a venda de armas ilegal permite o branqueamento de capitais, que depois podiam ser aproveitados para outros fins.

A junta era composta por sete membros. Presidida pelo general António de Spínola, integrava Rosa Coutinho, Pinheiro de Azevedo, Costa Gomes, Jaime Silvério Marques, Galvão de Melo e Diogo Neto


27.Entre os nomes que vi referidos nestes documentos figuravam:
- José Avelino Avelar
- Coronel Vinhas
- General Diogo Neto
- Major Canto e Castro
- Empresário Zoio
- General Pezarat Correia
- General Franco Charais
- General Costa Gomes
- Major Lencastre Bernardo
- Coronel Robocho Vaz
- Francisco Pinto Balsemão

Francisco Balsemão e Lencastre Bernardo eram referidos como elementos de ligação ao grupo Bildeberg e a Henry Kissinger, Francisco Balsemão pertence também à loja maçónica "Pilgrim", que é anglo-saxónica, e dependente do grupo Bilderberg. Lencastre Bernardo tinha também assinalada a sua ligação a alguns serviços de inteligência, visto ele ser, nos anos 80, o coordenador na PJ e na Polícia Judiciária Militar.

Entre as empresas Portuguesas que realizavam as vendas de armas atrás referidas, entre os anos 1974 e 1980, estavam referidas neste Dossier:
- Fundição de Oeiras (morteiros, obuses e granadas)
- Cometna (engenhos explosivos e bombas)
- OGMA (Oficinas Gerais Militares de Fardamento e OGFE (Oficinas de Fardamento do Exercito)
- Browning Viana S.A.
- A. Paukner Lda, que existe desde 1966
- Explosivos da trafaria
- SPEL (Explosivos)
- INDEP (armamento ligeiro e monições)
- Montagrex Lda, que actuava desde 1977, com Canto e Castro e António José Avelar. Só foi contudo oficialmene constituida em 1984, deixando, nessa altura, Canto e Castro de fora, para não o comprometer com a operação de Camarate. A Montagrex Lda operava no Campo Poqueno, e era liderada por António Avelar que era o braço direito de Canto e Castro e também sócio dessa empresa. O escritório dessa empresa no Campo Pequeno é um autentico “bunker", com portas blindadas, sensores, alarmes, códigos nas portas, etc.

Canto e Castro e António Avelar são também sócios da empresa inglesa BAE - Systems, sediada no Reino Unido. Esta empresa vende sistemas de defesa, artilharia, mísseis, munições, armas submarinas, minas e sobretudo sistemas de defesa anti-mísseis para barcos.Todos estes negócios eram feitos, na sua maior parte, por ajuste directo, através de brokers - intermediários, que recebiam as suas comissões, pagas por oficiais do Exército, Marinha, Aeronáutica, etc.




28.Nestes documentos era referido que, como consequência desta vendas de armas, gerava-se um fluxo considerável de dinheiro, a partir destas exportações, legais e ilegais. Estes documentos referiam também a quem eram vendidas estas armas, sobretudo a países em guerra, ou ligados ao terrorismo internacional. Era também referido que todas estas vendas de armas eram feitas com a conivência da autoridade da época, nomeadamente militares como o General Costa Gomes, o General Rosa Coutinho (venda de armas a Angola) e o próprio Major Otelo Saraiva de Carvalho ( venda de armas a Moçambique). Vi várias vezes o nome de Rosa Coutinho nestes documentos, que nas vendas de armas para Angola utilizava como intermediário o general reformado angolano, José Pedro Castro, bastante ligado ao MPLA, que hoje dispõe de uma fortuna avaliada em mais de 500 milhões de USD, e que dividia o seu tempo entre Angola, Portugal e Paris. O seu filho, Bruno Castro é director adjunto do Banco BIC em Angola.

No referido dossier estavam também referidos outros militares envolvidos neste negócio de armas, nomeadamente o Capitão Dinis de Almeida, o Coronel Corvacho, o Vera Gomes e Carlos Fabião.
Todas estas pessoas obtinham lucros fabulosos com estes negócios, muitas vezes mesmo antes do 25 de Abril de 1974 e até 1980. Era referido que estas pessoas, nomeadamente militares, que ajudavam nesta venda de armas, beneficiavam através de comissões que recebiam. Estavam referidos neste Dossier os nomes de "off-shores", que eram usadas para pagar comissões às pessoas atrás referidas e a outros estrangeiros, por Oliver North ou por outros enviados da CIA. Estas "off-shores" detinham contas bancárias, sempre numeradas.

29.Esta referência batia certo com o que Oliver North sempre me contou, de que o negócio das armas se proporciona através de "off-shores" e bancos controlados para a lavagem de dinheiro.

Vale a pena a este respeito referir que no negócio das armas, empresas do sector das obras públicas aparecem frequentemente associadas, como a Haliburton, a Carlyle, ou a Blackwater, (empresa de armas, construção e mercenários), entre outras. Esta relação está referida, há anos, em vários relatórios, nomeadamente nos relatórios do Bribe Payer Index (indice internacional dos pagadores de subornos), que é uma agência americana. A indicação deste tipo de práticas foi desenvolvida mais tarde, pela Transparency International e pelo Comité Norte Americanos de Coordenação e Promoção do Comercio do Senado Americano, que referem que há muitos anos , mais de 50% do negócio e comercio de armas em Portugal, é feito através de subornos. Os americanos sempre usaram Portugal para o tráfico de armas, fazendo também funcionar a Base das Lajes, nos Açores, para este efeito, nomeadamente depois de 1973, aquando da guerra do Yom Kippur, entre Israel e os países árabes. Este tráfico de armas deu origem a várias contrapartidas financeiras, nomeadamente através da FLAD, que foi usada pela CIA para este efeito. A FLAD recebeu diversos fundos específicos para a requalificação de recursos humanos.

Não ví contudo neste Dossier observações referindo referindo que estas vendas de armas eram condenáveis ou que tinham efeitos negativos. Havia contudo uma pequena nota, em que algumas folhas de que se devia tomar cuidado com tudo o que aí estava escrito, e que portanto se devia actuar. Havia também na primeira página um carimbo que dizia "confidentical and restricted".




30.Estas vendas de armas continuaram contudo depois de 1980. Tanto quanto eu sei, estas vendas de armas continuaram a ser realizadas até 2004, embora com um abrandamento importante a partir de 1984, a partir do escândalo das fardas vendidas à Polónia.
No referido Dossier estavam também referidas personalidades americanas envolvidas no negócio de armas, nomeadamente Bush (Pai), dick Cheney, Frank Carlucci, Donald Gregg, vários militares, bem como a empresas como a Blackwater. são ainda referidas empresas ligadas aos EUA, como a Carlyle, Haliburton, Black Eagle Enterprise, etc, que estavam a usar Portugal para os seus fins, tanto pela passagem de armas através de portos portugueses, como pelo fornecimento de armas a partir de empresas portuguesas. Tirei apontamentos desses documentos, que ainda hoje tenho em meu poder.

A empresa atrás referida, denominada supermarket, foi criada em Portugal em 1978, e operava através da empresa mão, de nome Black-Eagle, dirigida por William Casey, (membro do CFR(Council for Foreign Affairs and Relations), ex-embaixador dos EUA nas Honduras e também com ligações à CIA). A empresa supermarket organizava a compra de armas de fabrico soviético, através de Portugal, bem como a compra de armas e munições portuguesas, referidas anteriormente, com toda a cumplicidade de Oliver North. Estas armas iam para entrepostos nas Honduras, antes de serem enviadas para os seus destinos finais. Oliver North pagou muitas facturas destas compras em Portugal, através de uma empresa chamada Gretsh World, que servia de fachada à Supermarket.




31.Mais tarde, cerca de 1985, quando se começou muito a falar de camarate, Oliver North cancelou a operação "Supermarket, e fechou todas as contas bancárias. Devo ainda referir que William Hasselberg e outros americanos da embaixada dos EUA, em Lisboa, comentaram comigo, várias vezes o que estava escrito neste Dossier. Relativamente a Hasselberg isso era lógico, pois foi ele que me deu o Dossier a ler. Posteriormente comentei também o que estava escrito neste Dossier com Frank Carlucci, que obviamente já tinha conhecimento da informação nele contida.

Tanto William Hasselberg, como membro da CIA, como outros elementos da CIA atrás referidos e outros, comentaram várias vezes comigo o envolvimento da CIA na operação de Camarate e neste negócio de armas. Lembro-me nomeadamente que quando alguém da CIA, me apresentava a outro elemento da Cia, dizia frequentemente "this is the portuguese guy, the one from Camarate, the case in Portugal with the plane!".

As vendas de armas, a partir e através de Portugal, foram realizadas ao longo desses anos, pois era do interesse politico dos EUA. A CIA organizou e implementou estas vendas de armas em Portugal, à semelhança do que sucedeu noutros países, pois era crucial para os EUA que certs armas chegassem aos países referidos, de forma não oficial, tendo para isso utilizados militares e empresários Portugueses, que acabaram também por beneficiar dessas vendas.

Como anteriormente referi, William Casei e Oliver North estavam, nas décadas de 70 e 80 conluiados com o presidente Manuel Noriega, no escândalo Irão - contras (Irangate). Foi sempre Oliver North que se ocupou da questão dos reféns americanos no Irão, bem como da situação da América Central. Recebeu pessoalmente por isso uma carta de agradecimentos de George Bush Pai, Vice Presidente à época de Ronald Reagan.




32.Devo dizer a este respeito que John Bush, filho de Bush Pai, então com 35 anos, a viver na Flórida, pertencia em 1979 e 1980 ao “Condado de Dade", que era e é uma organização republicana, situada em South Florida, destinada a angariar fundos para as campanhas eleitorais republicanas. John Bush era um dos organizadores de apoios financeiros para os "contra" da Nicarágua.
Conheci também Monzer Al Kasser um grande traficante de armas que tinha uma casa em Puerto Banus em Marbella, e que me foi apresentado, em Paris, por Oliver North, em 1979. Era um dos grandes vendedores de armas para os “Contra” na Nicarágua, trabalhando simultaneamente para os serviços secretos sírios, búlgaros e polacos. Na sua casa em Marbella, referiu-me também que, por vezes, o tráfico de armas era feito através de África, para que no Iraque não se apercebessem da sua proveniência, pois também vendiam ao mesmo tempo ao Irão e mesmo a Portugal. Este tráfico de armas, que estava em curso, desde há vários anos, em 1980, e o começo do caso Camarate.

Através de Al Kasser conheci, em Marbella, no final de 1981, outro famoso traficante de armas, numa festa em casa de Monzer, que se chamava Adrian Kashogi. Kashogi, como pude testemunhar em sua casa, tinha relações com políticos e empresários europeus, árabes e africanos, por regra ligados ao tráfico de armas e drogas.




33.Sou preso em 1986, acusado de tráfico de drogas. Esta prisão foi uma armadilha montada pela DEA, por elementos que nessa organização não gostavam de mim, por eu ter levado à detenção de alguns deles, como referi anteriormente. Fui então levado para a prisão de Sintra. Estou na prisão com o Victor Pereira,, que aí também estava preso. Sei, em 1986, que estavam a preparar para me eliminar na prisão, pelo que peço à minha mulher Elza, para ir falar, logo que possível com Frank Carlucci. Em consequência disso recebo na prisão a visita de um agente da CIA, chamado Carlston, juntamente com outro americano. estes, depois de terem corrompido a direcção da prisão, incluindo o director, sub-director e chefe da guarda, bem como um elemento que se reformou muito recentemente, da Direcção Geral dos serviços Prisionais, chamada Maria José de Matos, conseguem a minha fuga da prisão. Contribuiu ainda para esta minha fuga, mediante o recebimento de uma verba elevada, paga pelos referidos agentes americanos esta directora-adjunta da Direcção Geral dos serviços Prisionais. Estes agentes americanos obtêm depois um helicóptero, que me transporta para a Lousã, onde fico cerca de 20 dias. Vou depois para Madrid, com a ajuda dos americanos, e depois daí ara o Brasil. as despesas com a minha fuga da prisão custaram 25000 euros, o que na época era uma quantia elevada.

Só mais tarde no Brasil, depois de 1986, é que referi a José Esteves que sabia que Sá Carneiro ia no avião, contando-lhe a história toda. José Esteves, responde então, que nesse caso, tinha-mos corrido um grande risco. Eu tranquilizei-o, referindo que sempre o apoiei e protegi neste atentado. Dei-lhe apoio no Brasil no que pude. Assegurei-lhe também o transporte para o Brasil, obtendo-lhe um passaporte no Governo Civil de lisboa, entreguei-lhe 750 contos que me foram dados para esse efeito pela embaixada dos EUA, em Lisboa, e arranjei-lhe o bilhete de avião de Madrid para o Rio de Janeiro . Na viagem de Lisboa para Madrid, José Esteves foi levado por Victor Moura, um amigo comum. No Rio de Janeiro ajudei-o a montar uma loja, numa roulote. Como trabalhava ainda para a embaixada dos EUA, em Lisboa, estas despesas foram suportadas pela Embaixada. Ficou no Brasil cerca de dois anos. Eu, contudo andava constantemente em viagens.



34.José Esteves recebe depois um telefonema de Francisco Pessoa de Portugal, onde Francisco Pessoa o aconselha a voltar a Portugal, e a pedir protecção, a troco de ir depor na Comissão de Inquérito Parlamentar sobre Camarate. Esse telefonema foi gravado, mas José Esteves nunca chegou a obter uma protecção formal.Telefono a Frank Carlucci, em 1987, pedindo-lhe para falar com ele pessoalmente. Ele aceita, pelo que viajo do Brasil, via Miami, para Washington.
Pergunto-lhe então, em face do que se tinha falado de Camarate, qual seria a minha situação, se corria perigo por causa de Camarate, e se continuarei, ou não a trabalhar para a CIA. Frank Carlucci responde-me que sim, que continuarei a trabalhar para a CIA, tendo efectivamente continuado a ser pago pela CIA até 1989. Frank Carlucci confirma nessa reunião que puderam contar com a colaboração de Penaguião na operação de Camarate, e que ele, Frank Carlucci, esteve a par dessa participação.

Em 1994, foi-me novamente montada uma armadilha em portugal, por agentes da DEA que não gostavam de mim, por causa da referida prisão de agentes seus, denunciados por mim.



35.Nesta armadilha participam também três agentes da DCITE - Portuguesa, os hoje inspectores Tomé, Sintra e Teófilo Santiago. Depois desta detenção, recebo a visita na prisão de Caxias de dois procuradores do Ministério Público, um deles, se não estou em erro, chamado Fernando Ventura, enviados por Cunha Rodrigues, então Procurador Geral da República. Estes procuradores referem-me que me podem ajudar no processo de droga de que sou acusado, desde que eu me mantenha calado sobre o caso Camarate.

Por ser verdade. e por entender que chegou o momento de contar todo o meu envolvimento na operação de Camarate, em 4 de Dezembro de 1980, decidi realizar a presente Declaração, por livre vontade. Não podendo já alterar a minha participação nesta operação, que na altura estava longe de poder imaginar as trágicas consequências que teria para os familiares das vítimas e para o país, pude agora, ao menos, contar toda a verdade, para que fique para a História, e para que nomeadamente os portugueses possam dela ter pleno conhecimento.

Não quero, por ultimo, deixar de agradecer à minha mãe, à minha mulher Elza Simões, que ao longo destes mais de 35 anos, tanto nos bons como nos maus momentos, sempre esteve a meu lado, suportando de forma extraordinária, todas as dificuldades, ausências, e faltas de dedicação à família que a minha profissão implicava. Só uma grande mulher e um grande amor a mim tornaram possível este comportamento. Quero também agradecer à minha filha Eliana, que sempre soube aceitar as consequências que para si representavam a minha vida profissional, nunca tendo deixado de ser carinhosa comigo. Finalmente quero agradecer à minha mão que, ao longo de toda a minha vida me acarinhou e encorajou, apesar de nem sempre concordar com as minhas opções de vida. A natureza da sua ajuda e apoio, tiveram para mim uma importância excepcional, sem, as quais não teria conseguido prosseguir, em muitos momentos da minha vida.
Posso assim afirmar que tive sempre o apoio de uma família excepcional, que foi para mim decisiva nos bons e maus momentos da minha vida.

Lisboa, 26 de Março de 2012
Fernando Farinha Simões
B.I. n.º 7540306"

Filmes da época:

Dossier Camarate Sá Carneiro 1980 Acidente Parte 01 [Reportagem RTP 1983]

Dossier Camarate Sá Carneiro 1980 Acidente Parte 02 [Reportagem RTP 1983

Morte Sá Carneiro 04-12-1980 (Notícia + Conversa Piloto / Torre Controlo)

1906

Luta & Resiste!